A eleição presidencial chega à reta final ainda indefinida. O Datafolha divulgado na quinta-feira, 22, mostra Flávio Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT) empatados com 50% dos votos válidos, depois de o senador ter terminado o primeiro turno à frente, com 47% contra 45%. A mobilização dos eleitores, alimentada pelo medo de um retorno dos Bolsonaro ao poder com poucas amarras do Congresso e do Judiciário, mantém a disputa em aberto. O debate da TV Globo, na noite de sexta-feira, 23, e sua repercussão devem pesar no resultado.
Mesmo sem um vencedor definido, as duas campanhas já deram pistas sobre a montagem do próximo governo.
Um governo de Flávio teria três grupos principais na Esplanada. O primeiro é formado pela própria família e pelos leais a ela. São aqueles que, com ou sem laços de sangue atravessaram os últimos quatro anos ao lado de Jair Bolsonaro e esperam ser recompensados. O ex-presidente pode ser beneficiado por uma revisão criminal no Supremo Tribunal Federal (STF), que o relator, Kassio Nunes Marques, prometeu levar ao plenário depois do segundo turno. Mesmo sem cargo formal, Jair deve ser peça central do governo: as negociações do ministério passarão por ele, e pessoas de sua confiança ocuparão postos no Planalto, na segurança pública e em pastas setoriais.

Eduardo Bolsonaro deve ter grande influência sobre a política externa, mesmo que não seja nomeado chanceler imediatamente. Sua principal briga não será com parceiros externos, mas com o próprio Itamaraty. A tendência é tentar repetir o que Donald Trump fez no Departamento de Estado, afastando diplomatas que resistiram à agenda bolsonarista no primeiro mandato.
O segundo grupo é o dos técnicos de perfil liberal, que ocupariam a maior parte da equipe econômica. Defendem com mais veemência o ajuste fiscal, menos interferência do Estado na economia e mudanças rápidas na regulação de vários setores. Esse time já trabalha junto na campanha, sob a coordenação de Daniella Marques e Adolfo Sachsida, e deve receber o reforço de nomes do mercado e de quadros indicados por aliados como o governador Tarcísio de Freitas, reeleito em São Paulo.
O terceiro grupo é o Centrão. O PL elegeu 121 deputados, a maior bancada de um partido do presidente em mais de 30 anos, mas isso não basta para uma coalizão estável na Câmara. Flávio precisará abrir espaço em ministérios, alguns de primeira linha. Agricultura e Minas e Energia são candidatas naturais a ficar na esfera de influência das bancadas. Os militares, por outro lado, devem ter presença bem menor que no governo de Jair, porque a relação da família com as Forças Armadas piorou depois da condenação do ex-presidente. Uma ocupação do primeiro escalão como a de 2019 é improvável, ao menos no inicio, até que os Bolsonaro tenham mais tempo para elevar quadros de sua confiança dentro das Forças Armadas.
As questões mais relevantes, porém, vão além dos nomes. Uma linha de tensão clara é a política externa, já que a equipe econômica tende a tentar conter a agenda de Eduardo. Outra pode surgir dentro da própria área econômica, a depender do perfil do ministro da Fazenda: alguém com mais autonomia e distância da família, ou alguém mais próximo e leal. E há o grau de intervenção de Jair na economia. Flávio votou a favor do fim da escala 6×1, criticado por sua campanha durante meses, depois de conversar com o pai. Foi um exemplo de como o cálculo eleitoral pode moldar a agenda e deixar o mandato de Flávio mais parecido com o fim do governo de Jair do que com o seu começo.
Do lado de Lula, um quarto mandato não seria continuação linear do terceiro. O PL terá 28 das 81 cadeiras do Senado, e a reação do mercado a uma reeleição tende a ser negativa. A campanha está concentrada na virada, mas dois movimentos ganham força internamente. O primeiro é a escolha de um ministro da Fazenda que sinalize aos investidores mais autonomia para promover um ajuste de contas; o nome do vice-presidente Geraldo Alckmin tem sido cada vez mais citado. O segundo é dar mais espaço aos setores mais jovens e eleitoralmente bem-sucedidos do PT, sobretudo do Nordeste, que ganham terreno em relação aos grupos de São Paulo e do Sudeste. Eles poderiam manter a Casa Civil e ter participação maior no restante do ministério.
Lula também tem sido aconselhado a convidar quadros de fora do partido para sinalizar que o quarto mandato seria uma espécie de transição. A profundidade e a extensão dessa mudança, como quase tudo no próximo governo, só ficarão claras depois de domingo.