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Há bons exemplos de direita e esquerda quando a educação é pautada na aprendizagem, diz secretário

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O secretário da Educação do Paraná, Roni Miranda, acredita que o governo federal precisa investir mais na formação de professores nos próximos quatro anos, para “acabar com o abismo entre a universidade e a sala de aula”. Segundo ele, os docentes chegam às redes de ensino sem saber dar aulas e precisam de materiais bem estruturados de apoio – política que ele implementou e ajudou o Paraná a alcançar este ano o 1º lugar em todos os rankings de educação no País.

No Estado, 80% das crianças já estão alfabetizadas na idade certa, segundo dados divulgados pelo Ministério da Educação (MEC) – uma meta do Brasil para 2030. “Somos educadores, o compromisso é com a educação, a gente não coloca a bandeira partidária. Temos bons exemplos dos dois lados, quando a política é voltada para resultados, pautada na aprendizagem do estudante, e não por outros interesses”, afirma.

Entre os governos com bons resultados, ele cita o Paraná e o Rio Grande do Sul, ambos governados pelo PSD, o Piauí (PT), Alagoas (MDB), Mato Grosso (Republicanos) e Paraíba (PP).

Mesmo líder dos rankings nacionais de aprendizagem, o governador Ratinho Junior (PSD) não conseguiu reeleger seu sucessor. Sergio Moro (PL) ganhou no 1º turno no Estado. “A educação ainda não é a principal preocupação da sociedade. É triste. Quando se olha para o mundo, os exemplos que aconteceram ao longo da história, os países que se desenvolveram social e economicamente, todos fizeram um grande pacto pela educação.”

Leia os principais trechos da entrevista:

O Paraná chegou neste ano à liderança em todos os rankings nacionais. É possível outros Estados e o MEC aproveitarem essa experiência?

O Brasil é diverso, com vários desafios e possibilidades. Mas o que fizemos no Paraná foi um trabalho robusto, bem organizado e estruturado. Não lançamos nenhum programa sem ter integração com todas as políticas públicas. Acredito, sim, que o Brasil pode aproveitar boas experiências do Paraná, como a organização de rede. Ter um sistema de gestão estruturado para apoiar os municípios e Estados, desde o estudante até a alocação de professores. Um material voltado realmente para a aprendizagem, estruturado para o estudante. Em que ele realmente vai aprender o que precisa para a vida e não uma grande torre de babel de muito conteúdo e pouca objetividade. Depois, um material de apoio ao professor é fundamental, pois a grande maioria dos professores no Brasil trabalha em mais de uma escola. Criar planos de aulas de apoio ao professor, não para substituir o que ele faz, mas para apoiá-lo. E ainda uma formação continuada entre pares; o MEC pode induzir e coordenar isso em nível Brasil, priorizando os Estados e municípios com maior dificuldade em resultados. Outro ponto para ser enfrentado é a formação inicial nas Licenciaturas e pedagogia, que precisa estar voltada para as necessidades da escola pública. Há um abismo entre o que se ensina nas universidades e o que se precisa na sala de aula.

E como o MEC pode fazer isso?

O MEC pode coordenar esse trabalho junto às universidades públicas e privadas, com o Conselho Nacional de Educação, criar legislação. Há lobby e corporativismo fortes, mas há possibilidade se houver pacto real pela aprendizagem. Recebemos professores sem formação adequada para desafios como educação especial, autismo, indisciplina e gestão de sala de aula. Falta aproximação entre as universidades e as equipes das secretarias de educação. Além disso, enfrentamos dificuldades em Matemática. Quem dá aula do 1º ao 5º ano na maioria dos municípios são pedagogos, que tendem a não ter muita afinidade com a Matemática. A formação desses graduandos de Pedagogia precisa ter carga maior de Matemática.

Como vê a atuação do MEC nessa gestão? Houve pactos com Estados e municípios em programas como Criança Alfabetizada, Escola Conectada, ensino integral?

Todos os secretários deixam a questão partidária de lado pelo compromisso com a educação. Quando o programa é bom, há adesão tanto da esquerda quanto da direita. Na alfabetização, quem promove e custeia a avaliação nacional são os próprios Estados, sem custo relevante ao MEC. Dito isso, a régua da matriz de avaliação do Inep (Instituto Nacional de Pesquisas Educacionais, órgão do MEC) é muito baixa em comparação com países como o Chile. Nem sempre a criança considerada alfabetizada realmente está. Acredito que essa matriz do Inep precisa ser discutida para definir os reais níveis de alfabetização. Outro ponto que o governo federal não quis apoiar Estados e municípios foi na solução de internet com a Starlink por questões ideológicas relacionadas ao Elon Musk (dono da empresa), obrigando Estados como Paraná, Pará e Acre a tomarem decisões individuais de contratação. Independentemente de quem seja o representante da empresa, o foco deve ser o benefício para os estudantes. Se pautarmos a gestão em ideologia ou pessoas, não fazemos gestão de qualidade.

O senhor vê diferenças entre as políticas educacionais de esquerda ou de direita?

Temos bons exemplos dos dois lados quando há foco na aprendizagem. Na centro-direita, o Paraná teve os melhores resultados no Ideb e Pisa, assim como o Rio Grande do Sul, Goiás e Mato Grosso; na esquerda, Piauí, Alagoas, Paraíba têm bons trabalhos. O grande problema é a criação constante de uma “colcha de retalhos” de programas sem foco em Matemática e Língua Portuguesa. Nosso grande desafio é esse: o estudante sair bem alfabetizado, com conhecimento bacana de Língua Portuguesa e de Matemática, porque a vida dele se torna melhor. A gente tem uma discussão sobre o método fônico ou método construtivista na alfabetização. Fica um preconceito de gente que muitas vezes nunca pisou na sala de aula, não sabe o que que é ensinar. Em sala de aula, você usa um pouco do construtivismo somado ao fônico, você gera alfabetização.

Apesar dos ótimos resultados no Paraná, o governo Ratinho Junior não elegeu seu sucessor. Educação não dá voto?

Não dá voto. A educação ainda não é a principal preocupação da sociedade. É triste. Porque quando se olha para o mundo, os exemplos ao longo da história, os países que se desenvolveram social e economicamente, todos fizeram um grande pacto pela educação. Contudo, a oposição eleita (Moro) reconheceu nossa gestão como positiva e propôs continuidade em seu plano de governo.

Qual a sua opinião sobre o programa Pé-de-Meia (que dá bolsas a alunos pobres do ensino médio para combater a evasão), do governo atual, e que o presidente Lula promete universalizar se for reeleito?

Deve continuar, mas precisa de ajustes, como exigir frequência escolar maior do que 80%, atrelar (as bolsas) às notas do aluno e ter um valor maior para estudantes do ensino médio em tempo integral que fazem também o técnico, em vez de universalizar o pagamento.

E sobre desvincular os gastos da educação do orçamento?

Não concordo. Os (gastos mínimos, em relação à arrecadação de impostos, de) 25% de Estados e municípios e 18% da União são uma conquista fundamental. O dinheiro precisa de aplicação qualificada e o orçamento da educação básica precisa crescer conforme a arrecadação.

O Paraná tem o maior número de escolas cívico-militares entre as redes estaduais. O senhor acredita que elas deveriam ser incentivadas no Brasil todo?

Não massificar, mas levar para onde há real necessidade de apoio à disciplina e combate à violência. No Paraná, temos 345 escolas cívico-militares com aprovação dos pais e professores, aumento de matrículas e melhoria de desempenho no Saeb (prova do MEC que mede a aprendizagem). O militar atua como monitor de entrada, saída e apoio, sem substituir a autoridade do professor ou diretor. Em alguns lugares que precisam, dá resultado. Obviamente com o trabalho estruturado, organizado, com cada um sabendo seu papel que deve ser cumprido. E com acompanhamento, formação continuada. Tem locais que o professor não consegue dar aula, não consegue entrar na sala.

As evidências são de melhora da aprendizagem porque houve a militarização ou porque a escola toda melhorou em outras questões?

A política pública que criamos no Paraná nunca é para quadradinho. Ela visa todos os estudantes, toda a rede estadual do Paraná. Obviamente que a cívico militar engloba todo esse contexto. Mas algumas escolas que tínhamos muita dificuldade, diminuindo ano a ano o número de estudantes por violência, drogas, tiveram uma explosão de matrículas com o modelo cívico-militar. E os resultados nas avaliações alavancaram. Mas a decisão tem que ser da comunidade. Não pode ser do sindicato, do secretário, do vereador, do prefeito. Quem tem de decidir são os pais, os professores. A gestão dá oportunidade e a comunidade valida. E, depois de uns 5 anos, fazer nova consulta para ver se a comunidade continua aprovando o modelo ou não. Não tenho problema de voltar atrás em programas que não funcionam bem. O importante é ir para frente, não ficar na inércia. Falamos em números, mas cada número desses tem nome, história, um futuro impactado pela decisão. E muitas vezes se pensa: ‘não vou fazer isso porque vai ter polêmica’.

Mas o dinheiro do Ministério da Educação é limitado. Quando se escolhe colocar dinheiro em escolas cívico-militares, tiraria do ensino integral ou do técnico?

Tem muitos programas inócuos, programinhas pequenos. A Secretaria de Diversidade (Secadi, do MEC) tem vários programinhas que eu nem lembro os nomes porque são irrelevantes. Vai distribuindo recurso aqui, coloca dinheiro ali, e não tem acompanhamento de resultado da política pública. Será que deu resultado? Será que não?

O senhor teve conversas com a campanha do Flávio Bolsonaro, candidato à Presidência?

Nunca conversei com ninguém da campanha do Flávio Bolsonaro, Dialoguei anteriormente com o governador eleito do Rio Grande do Sul (Luciano Zucco, do PL), sobre o nosso modelo, e estou fazendo diálogos que devem ser definidos depois do 2º turno.

O que acha da proposta de vouchers em creches que o candidato Flávio Bolsonaro sugere (pagar para crianças estudarem em escolas privadas quando não há vaga na rede pública)?

Funcionam bem para creches em grandes centros urbanos, onde já existe rede privada. Em cidades menores, a solução é o modelo de PPP (parceria público-privada) para construção rápida de creches. Em um município que tem 2 mil habitantes, muitas vezes não tem nem equipe na secretaria para fazer licitação e construir uma escola. O governo coloca o dinheiro e fica parado porque não é licitado ou tem problema de corrupção. Em cidades maiores, que já tem creches privadas ou de organizações sociais, poderia ser voucher. O pai avalia a qualidade e escolhe onde. Quem é a pessoa que quer o melhor para seu filho? O pai e a mãe. Ele vai querer sempre que o filho esteja mais seguro, principalmente nessa idade, que é menor.

Mas se o governo coloca dinheiro público no voucher não é responsabilidade dele também fiscalizar a qualidade?

Mas ele vai credenciar, vai ter de passar por um crivo, mandar o seu quadro de docente, ver se tem algum tipo de denúncia, como a gente faz em qualquer processo de contratação de empresas no setor público. Mas o pai que recebe o serviço será a melhor pessoa para dizer. Faz uma pesquisa de satisfação com os pais, coloca que tem que que atingir 80% de satisfação. (Se) Não atingiu, tira o contrato. Ponto.

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