
Repetibilidade e reprodutibilidade são as duas fontes de variação que definem se um sistema de medição é confiável.
Repetibilidade é a variação que aparece quando o mesmo operador mede a mesma peça várias vezes com o mesmo instrumento, e costuma apontar para o equipamento. Reprodutibilidade é a variação entre as médias de diferentes operadores (ou instrumentos ou métodos) medindo a mesma peça nas mesmas condições.
Separar as duas é o que permite decidir se a correção passa por calibrar o equipamento ou por treinar a equipe.
O que é repetibilidade?
Repetibilidade é o grau de concordância entre medições repetidas da mesma peça, feitas nas mesmas condições: mesmo operador, mesmo instrumento, mesmo procedimento, mesmo local e em curto intervalo de tempo.
A definição segue o Vocabulário Internacional de Metrologia (VIM), publicado no Brasil pelo Inmetro, que trata a repetibilidade como a precisão de medição sob condições de repetibilidade.
Na prática, como nada muda além da própria medição, a variaçãoque sobra vem do instrumento e da forma como a peça é posicionada nele. Por isso, nos estudos industriais, a repetibilidade é chamada de variação do equipamento.
O que é reprodutibilidade?
Reprodutibilidade é o grau de concordância entre as médias de medições da mesma peça feitas em condições diferentes, como por operadores, instrumentos ou métodos distintos.
O VIM inclui nessas condições diferentes locais, operadores e sistemas de medição. Nos estudos de chão de fábrica, porém, o instrumento e o local costumam ser fixos, e a única condição que muda é quem mede.
Por isso, na indústria, a reprodutibilidade é tratada como variação do operador: diferença de técnica, de leitura, de força aplicada ou de interpretação do procedimento.
Qual a diferença entre repetibilidade e reprodutibilidade?
A diferença entre repetibilidade e reprodutibilidade está no que muda entre as medições: na repetibilidade, nada muda; na reprodutibilidade, muda o operador.
| Critério | Repetibilidade | Reprodutibilidade |
|---|---|---|
| Pergunta que responde | O instrumento dá o mesmo resultado quando a medição se repete? | Pessoas diferentes chegam ao mesmo resultado? |
| O que muda | Nada: mesmo operador, peça e instrumento | O operador, ou instrumento ou método |
| Origem típica | Equipamento, fixação da peça, desgaste | Treinamento, método, interpretação |
| Nome no estudo | Variação do equipamento (VE) | Variação do operador (VO) |
| Ação típica | Manutenção, troca do instrumento | Padronização e treinamento |
Onde entram precisão e exatidão nessa análise?
Repetibilidade e reprodutibilidade medem a precisão (variação) do sistema de medição, não a sua exatidão (viés na medição).
Segundo o VIM, precisão é a concordância entre valores medidos repetidamente, enquanto exatidão é a concordância entre o valor medido e o valor verdadeiro.
Entender precisão e exatidão evita um erro comum: um instrumento pode repetir sempre o mesmo número e, ainda assim, estar errado.
A exatidão é tratada pela calibração/ajuste, que compara o instrumento com um padrão rastreável. O estudo de R&R entra depois, para verificar se a dispersão das medições é pequena o bastante para o uso pretendido.
Como funciona a metodologia Gage R&R?
A metodologia R&R é o estudo estatístico que separa quanto da variação observada vem do equipamento, quanto vem dos operadores e quanto vem das próprias peças.
Ela faz parte da Análise do Sistema de Medição (MSA), conjunto de técnicas que avalia se os dados de medição são confiáveis antes de usá-los para decidir. O passo a passo básico é este:
- Selecione peças que representem toda a faixa de variação do processo.
- Escolha operadores que realizam a medição no dia a dia.
- Peça que cada operador meça cada peça mais de uma vez, em ordem aleatória e sem saber qual peça está medindo.
- Calcule a variação do equipamento, a variação do operador e a variação entre peças pelo método de médias e amplitudes ou por análise de variância (ANOVA).
- Compare a variação do sistema de medição com a variação total ou com a tolerância da característica.
Um estudo do Centro de Tecnologia Mineral (Cetem), instituto do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, aplicou esse roteiro com 10 corpos de prova, 2 operadores e 3 medições por peça para validar um ensaio de absorção de água em rochas.
Como interpretar o resultado do estudo?
O resultado principal é o percentual de R&R, que indica quanto da variação observada é consumido pelo sistema de medição.
| %R&R | Leitura | Decisão |
|---|---|---|
| Abaixo de 10% | Sistema aceitável | Usar as medições com confiança |
| Entre 10% e 30% | Aceitável conforme a aplicação | Avaliar custo, risco e importância da característica |
| Acima de 30% | Sistema inaceitável | Corrigir antes de usar os dados |
As faixas seguem o manual de MSA da AIAG (2010), referência do setor automotivo citada pelo estudo do Cetem. O mesmo manual recomenda observar o número de categorias distintas, que indica quantos grupos de peças o sistema consegue diferenciar.
O que fazer quando o sistema de medição apresenta variação crítica?
Quando o R&R é alto, a primeira decisão é identificar qual componente predomina, porque cada um pede uma ação diferente e envolve áreas diferentes da empresa.
Quando a repetibilidade é o problema
Se a variação do equipamento domina, a ação é com a gerência de operações e a manutenção:
- Troca ou manutenção: verificar desgaste, folgas e estado de conservação do instrumento.
- Resolução adequada: conferir se o instrumento enxerga diferenças pequenas o suficiente para a tolerância.
- Fixação da peça: usar dispositivos que garantam o mesmo posicionamento em toda medição.
- Condições ambientais: controlar temperatura, vibração e limpeza do posto de medição.
Quando a reprodutibilidade é o problema
Se a variação do operador domina, o problema está no método e na capacitação, e o RH passa a ser parte da solução:
- Procedimento padrão: documentar como medir, em que ponto da peça e com qual força ou referência.
- Treinamento prático: capacitar todos os operadores no mesmo método, com demonstração no posto.
- Qualificação periódica: incluir o desempenho em medição na matriz de treinamento e repetir o estudo após a capacitação.
- Menos dependência: adotar dispositivos ou instrumentos que reduzam a influência da habilidade individual.
Um resultado em que a diferença entre operadores muda de peça para peça indica interação entre operador e peça, sinal de que o procedimento não cobre bem todos os tipos de peça.
Por que o R&R é decisivo para o controle de qualidade em processos?
O R&R é decisivo porque todo controle de qualidade em processos depende de medições: se o sistema de medição varia demais, a empresa aprova peças ruins, rejeita peças boas e reage a variações que não existem.
Gráficos de controle, estudos de capacidade e indicadores herdam o erro da medição. Por isso a validação do sistema de medição antecede o uso das ferramentas da Engenharia da Qualidade, como o controle estatístico de processos, e aparece entre as ferramentas da gestão da qualidade no item medição do diagrama de Ishikawa.
Na metodologia Lean Six Sigma, o estudo de R&R ocorre na fase Medir do DMAIC, etapa central da formação Green Belt Lean Seis Sigma, e protege a confiabilidade das métricas Lean Seis Sigma.
O mesmo cuidado vale para o monitoramento de processos e para qualquer rotina de controle e gestão de qualidade: um indicador só é útil quando o número que o alimenta é confiável.
Sua equipe sabe identificar se a variação vem do processo, do instrumento ou de quem mede?
Dúvidas sobre repetibilidade e reprodutibilidade
Qual é um percentual de R&R aceitável?
Pela referência do manual de MSA da AIAG, abaixo de 10% o sistema é aceitável, entre 10% e 30% pode ser aceito conforme a aplicação e acima de 30% precisa ser corrigido.
Repetibilidade é o mesmo que precisão?
Não exatamente. Repetibilidade é a precisão medida em um conjunto específico de condições, com o mesmo operador, instrumento e método. Reprodutibilidade também é uma forma de precisão, só que em condições diferentes.
A calibração resolve problemas de R&R?
Nem sempre. A calibração corrige a exatidão do instrumento em relação a um padrão, mas não garante que ele repita bem as medições nem que operadores diferentes cheguem ao mesmo resultado.
Quantas peças e operadores são necessários para um estudo de R&R?
O número depende do procedimento adotado pela empresa, mas o estudo precisa de várias peças que representem a faixa do processo, mais de um operador e medições repetidas de cada peça. É de praxe selecionar de 5 a 10 peças.
Existe estudo de R&R para inspeções visuais ou por atributo?
Sim. Quando o resultado é aprovado ou reprovado, usa-se um estudo de concordância por atributos, que avalia se os inspetores concordam entre si, consigo mesmos e com um padrão de referência.