O Guilherme Furlan (a quem o prazer de poder chamar de Gui) foi um de meus clientes mais marcantes. Trabalhamos juntos há alguns anos durante sua jornada para MBA, na parte de application.
Logo em nossos primeiros encontros, Gui veio me consultar sobre uma oportunidade de carreira. Ele tinha a chance de sair uma consultoria e ir trabalhar numa das unicórnios mais interessantes do momento: Wellhub (mais conhecido como antigo Gympass).
Gui decidiu aceitar o desafio e cresceu aceleradamente enquanto profissional, atingindo cargos que são considerados objetivos de carreira pós-MBA.
Mesmo assim ele não desistiu de seu sonho. Anos depois de nossa primeiras conversas, ele quis tentar tirar o GMAT de novo. Aquele processo que, quem já fez, prefere apagar da memória.
O Gui é aquele cara que tem histórias de sobra e que tem como objetivo genuíno impactar positivamente às pessoas a seu redor. Eu torcia (e ainda) torço por ele.
Mas infelizmente, a nota o barrou.
Passada a tristeza, ele continuou crescendo na carreira e resolveu colocar sua experiência em forma de reflexão, com intuito de ajudar outras pessoas que estão nesse processo desgastante.
Então, sem mais delongas, é com você, Gui.
Por Gui Furlan:
Por quatro anos, minha vida girou em torno de um número: 700.
Essa era a nota mínima no GMAT que eu precisava para ser um candidato competitivo nas top business schools dos EUA. Estudei de forma intensa e dedicada, fiz a prova seis vezes, reorganizei rotinas e sacrifiquei finais de semana. Minha melhor nota foi 660. Insuficiente.
Mesmo assim, cheguei longe: fui entrevistado em Chicago Booth e fiquei na lista de espera de Berkeley. E então, depois de quatro anos, decidi parar.
Não é a história de superação que as pessoas esperam ouvir. Mas é a que tenho para contar, e ela carrega aprendizados que uso todo dia, muito além do GMAT.
O erro que ninguém te avisa antes de começar
Quando comecei a preparação, o MBA era um projeto de carreira. A nota era apenas o ingresso. Mas aos poucos, sem perceber, o ingresso virou o espetáculo. Cada tentativa malsucedida deixava uma marca que ia além do ego: comecei a confundir minha performance em uma prova com minha capacidade como profissional e como pessoa.
Esse é um padrão perigoso, e muito comum entre pessoas ambiciosas que perseguem objetivos de longo prazo. A meta deixa de ser um destino e passa a ser uma identidade. Qualquer resultado aquém vira uma ameaça existencial, não apenas um dado de realidade.
A virada aconteceu quando aprendi, lentamente e da forma difícil, a separar “o que estou tentando alcançar” de “quem eu sou”. Essa distinção parece óbvia escrita assim. Mas quando você está no meio de um ciclo de quatro anos de tentativas e frustrações, ela é tudo menos óbvia.
Paciência não é esperar: é confiar no processo sem garantias
Minha primeira tentativa foi com três meses de preparação. Eu esperava superar 700. O resultado veio muito abaixo disso, e a frustração foi proporcional à expectativa mal calibrada.
O problema não era o tempo investido. Era a crença de que esforço intenso de curto prazo deveria gerar resultado imediato. Queria comprimir uma curva de aprendizado de anos em um trimestre, e me frustrei quando a realidade não dobrou às minhas expectativas.
Com o tempo, fui entendendo que certos processos têm ritmo próprio. Raciocínio crítico, leitura analítica, gestão de tempo sob pressão: as habilidades que o GMAT avalia não se instalam com urgência. Precisam de sedimentação. E essa lógica vale para qualquer habilidade sofisticada: liderança, comunicação, tomada de decisão. Não existe atalho que compre o tempo necessário para internalizar o que realmente importa.
A paciência que aprendi não é passividade. É a capacidade de continuar em movimento sem precisar de resultados imediatos para se manter inteiro.
A complexidade como fuga
Em algum momento da preparação, montei um sistema elaborado: planilhas de controle de horas, OKRs para o estudo, softwares de gestão de progresso, rituais de revisão semanal. Estava mais ocupado gerenciando a preparação do que simplesmente estudando.
Só depois entendi o que estava acontecendo: a complexidade era uma fuga. Enquanto criava métricas e ajustava metodologias, evitava o único trabalho que realmente importava, que era sentar na frente de uma questão difícil, errar, entender o erro e fazer de novo. A organização parecia produtiva e segura. O estudo real era desconfortável.
Produtividade disfarçada de progresso é uma das armadilhas mais sofisticadas que conheço. E ela não aparece só em preparações para provas. Aparece em projetos profissionais, planejamentos de carreira, qualquer contexto onde o esforço real é árido e a sensação de controle é sedutora.
O que funcionou, no final, foi voltar ao básico: estudar menos questões, mas entender cada uma com profundidade. Registrar cada erro e revisitá-lo. Simular a prova inteira regularmente, sem atalhos. Simplicidade não é preguiça: é honestidade sobre o que realmente gera resultado.
O que fica quando o objetivo não vem
Roger Federer, maior tenista da história, disse uma vez: “When you’re playing a point, it has to be the most important thing in the world, and it is. But when it’s behind you, it’s behind you.” Aprendi algo parecido tentando tirar 700 no GMAT: a única forma de performar bem era estar totalmente presente em cada questão, sem ruminar o erro anterior ou antecipar o que ainda viria.
Esse treino de atenção, que desenvolvi por necessidade e não por virtude, é uma das coisas mais práticas que levo dessa jornada. Assim como a capacidade de reconhecer pensamentos sabotadores pelo que são: apenas pensamentos, não verdades. E a habilidade de continuar avançando mesmo sem garantia de resultado, não por teimosia, mas por clareza de propósito.
Hoje sou diretor de novos negócios numa empresa de bem-estar corporativo, liderando a expansão de uma business unit para o mercado europeu. Tenho responsabilidades que poucos MBAs me dariam em tão pouco tempo. Olho para os quatro anos de preparação sem ressentimento, não porque o fracasso “valeu a pena” (que é uma narrativa fácil demais), mas porque o processo me moldou de formas que um resultado positivo não moldaria da mesma forma.
Às vezes, o que construímos tentando alcançar algo que não alcançamos é mais sólido do que o que teríamos construído chegando lá. Essa ideia me parece mais honesta do que a versão em que tudo acontece como planejado.
Se eu pudesse recomeçar: o que faria diferente
Para quem está no início da preparação ou pensando em tentar, aqui estão as coisas concretas que eu mudaria.
Estudar com profundidade, não com volume. Resolver muitas questões sem entender cada uma gera a ilusão de progresso. O que realmente acelera a evolução é debruçar sobre cada erro: entender por que a resposta correta é correta e por que cada alternativa errada está errada. Isso é lento, é desconfortável, e é o que funciona.
Manter um error log desde o primeiro dia. Anotar cada questão errada, classificar o tipo de erro (falta de conhecimento, distração, má gestão de tempo) e revisitar esse registro com frequência. O erro que você não documenta, você repete. Levei meses para perceber isso, e poderia ter sido uma prática desde a semana um.
Construir a base antes de avançar para o difícil. Tentei resolver questões difíceis sem dominar completamente as fáceis e médias. O GMAT é adaptativo: se sua base for frágil, você nunca alcança as questões mais difíceis em condições de resolvê-las. Dominar o básico não é perda de tempo, é o caminho mais rápido para chegar lá.
Treinar resistência mental. Durante a preparação, eu estudava em blocos curtos. Na prova, a exigência é de horas seguidas de concentração máxima. Simular essa condição regularmente, com blocos longos e sem interrupções, é tão importante quanto o conteúdo em si.
Saber quais questões abrir mão. No GMAT, gestão de tempo é tão decisiva quanto conhecimento. Gastar minutos preciosos numa questão impossível compromete as que você dominaria com tranquilidade. Aprender a reconhecer quando chutar estrategicamente e seguir em frente é uma habilidade que se treina, e eu treinei tarde demais.
Só fazer a prova oficial quando a meta aparecer de forma consistente nos simulados. Tentei a prova antes de estar pronto, esperando que algo milagroso acontecesse no dia. Não acontece. O simulado não mente.
Nenhuma dessas práticas é revolucionária. Mas todas elas exigem a mesma coisa que a preparação para o GMAT ensina na marra: disciplina sem ilusão de atalho.
Gui Furlan é Diretor de Novos Negócios no Wellhub, onde lidera a expansão internacional do Wellz, plataforma de saúde mental corporativa. Atua como mentor de carreira para executivos em transição e crescimento profissional. Escreve sobre inteligência artificial aplicada a negócios na newsletter Modo IA.