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o-virus-do-autoritarismo

 

 

 

Roberto Lobo*                                                                   15 de setembro de 2026

 

A pandemia de COVID-19 foi, antes de tudo, uma tragédia humana. Milhões de pessoas morreram, sistemas de saúde foram pressionados e governos tiveram de tomar decisões em circunstâncias extraordinárias, muitas vezes sem dispor das informações necessárias para fazê-lo com segurança.

Interesses políticos e financeiros conviveram com medidas sanitárias extremas e que vêm sendo, em certa medida, questionadas.

Mas uma crise dessa dimensão também funciona como um teste de funcionamento para as instituições de uma sociedade em momentos extremos.

Quando existe uma emergência, a população naturalmente aceita que o Estado adquira poderes excepcionais para enfrentar o perigo.

O problema começa quando o excepcional passa a ser considerado normal, quando a urgência deixa de justificar apenas decisões rápidas e passa a justificar também a redução dos mecanismos de controle, da transparência e do direito ao questionamento.

É nesse ponto que surge o que podemos chamar de vírus do autoritarismo.

Não se trata necessariamente de uma ideologia autoritária, nem da intenção deliberada de alguém de estabelecer uma ditadura. O fenômeno pode ser muito mais sutil.

O medo, a emergência e a percepção de uma ameaça comum podem levar pessoas democráticas a aceitar, temporariamente, restrições que em condições normais seriam consideradas inaceitáveis, sem questionamentos.

O perigo está justamente aí: medidas excepcionais podem parecer razoáveis quando tomadas isoladamente. O problema aparece quando elas se acumulam e quando a sociedade passa a considerar que questioná-las é irresponsabilidade, negacionismo, ou falta de solidariedade.

Há muitos exemplos disso, por aqui e no resto do mundo.

A pandemia é um exemplo que mostrou como isso pode acontecer.

Em uma situação de grande incerteza, a ciência deveria ser particularmente aberta ao debate. Hipóteses deveriam ser testadas, resultados confrontados e opiniões divergentes examinadas.

Entretanto, em determinados momentos, houve uma tendência de transformar determinadas posições científicas em consenso oficial e, a partir daí, tratar o dissenso não como parte natural do processo científico, mas como ameaça.

Isso é especialmente perigoso porque ciência não é consenso; ciência é um processo institucional de produção e correção de conhecimento.

Uma hipótese pode estar errada. Uma política pública pode produzir consequências inesperadas. Um tratamento inicialmente considerado promissor pode não funcionar. Uma medida adotada por precaução pode revelar efeitos colaterais importantes.

O que protege a sociedade nesses casos não é a infalibilidade dos especialistas, mas a possibilidade de contestação e correção.

O problema se torna ainda maior quando o poder político, a autoridade administrativa e a autoridade científica passam a se reforçar mutuamente.

Quem decide pode dizer que está apenas seguindo a ciência. Quem define a orientação científica pode adquirir, por sua vez, uma influência política extraordinária. E aqueles que questionam as decisões podem ser acusados de estar questionando a própria ciência.

Forma-se então um círculo difícil de romper.

Durante a COVID-19, médicos e pesquisadores que apresentaram opiniões divergentes em relação a determinadas políticas ou tratamentos enfrentaram, em alguns casos, forte pressão institucional e social.

Não é necessário concluir que todas essas pessoas estavam certas. Algumas possivelmente estavam erradas. Mas esse não é o ponto.

Uma democracia e uma comunidade científica não podem depender de definir previamente quem está certo. Precisam permitir que as ideias sejam confrontadas.

O mesmo vale para as decisões governamentais.

Em uma emergência, é compreensível que governos ajam antes de possuir todas as informações. O que não deveria ser aceitável é transformar uma decisão provisória em uma verdade definitiva e impedir que ela seja posteriormente reavaliada.

Toda decisão tomada sob incerteza deveria vir acompanhada de uma pergunta simples: O que nos fará mudar de opinião?

Se não existe resposta para essa pergunta, já não estamos diante de uma política baseada em evidências, mas diante de uma crença protegida pelo poder.

Há ainda outro aspecto importante. Os indicadores utilizados para medir uma crise podem influenciar o comportamento daqueles que são avaliados por eles. Quando um determinado número passa a determinar recursos, reputações ou decisões políticas, os agentes têm naturalmente incentivos para produzir aquele número.

Isso não significa acusar ninguém de fraude ou má-fé. Significa apenas reconhecer que instituições também respondem a incentivos. E uma sociedade madura deve desenhar seus sistemas de controle levando esse fato em consideração.

A questão, portanto, é muito maior do que a COVID-19.

Desde Platão, a filosofia política procura responder a uma pergunta fundamental: quem deve governar e como impedir que o poder seja utilizado contra aqueles que estão sujeitos a ele?

Thomas More, em Utopia, imaginou uma organização social alternativa para discutir, entre outras coisas, os defeitos de seu próprio tempo. Igualitária, mas autoritária e até escravagista.

Tocqueville observou, na democracia americana, que a liberdade não dependia apenas das instituições formais, mas também dos costumes, das associações e da capacidade dos cidadãos de se organizarem independentemente do Estado. Talvez essa seja a grande força da democracia americana.

John Stuart Mill, por sua vez, advertiu para o perigo de uma sociedade na qual a maioria pudesse impor não apenas suas decisões, mas também suas opiniões. Ela defendeu o valor do pensamento individual e do confronto entre opiniões, inclusive porque uma opinião considerada errada pode conter parte da verdade.

Essas ideias convergem para uma conclusão importante: nenhuma sociedade deveria depositar sua segurança na existência de pessoas infalíveis.

Governantes erram. Cientistas erram. Juízes erram. Jornalistas erram. Instituições erram.

O que diferencia uma sociedade livre de uma sociedade autoritária não é a ausência de erros, mas sua capacidade de reconhecê-los e corrigi-los.

Por isso, uma democracia precisa de seus anticorpos.

Eles são constituídos pela separação de poderes, pela imprensa independente, pela liberdade acadêmica, pela autonomia profissional, pelo Judiciário, pelo Parlamento, pelas associações civis e, sobretudo, pelo direito de cidadãos comuns questionarem aqueles que exercem o poder.

Esses mecanismos podem ser incômodos. Podem tornar as decisões mais lentas. Podem produzir conflitos e dar espaço a opiniões que consideramos absurdas.

Mas é justamente essa inconveniência que constitui parte da proteção.

Uma sociedade em que todos concordam rapidamente pode parecer eficiente. Uma sociedade em que ninguém pode discordar pode até parecer organizada. Mas a ausência de conflito não significa necessariamente harmonia. Pode significar simplesmente que o medo de discordar se tornou maior que a liberdade de fazê-lo.

O verdadeiro teste das instituições ocorre quando existe uma ameaça.

Em tempos normais, é relativamente fácil defender liberdades. Em uma emergência, a tentação de sacrificá-las em nome de uma finalidade superior é muito maior.

Por isso, crises como a COVID-19 deveriam ser estudadas não apenas para descobrir quais medidas funcionaram ou não funcionaram, mas para compreender como as sociedades tomam decisões quando o medo, a incerteza e o poder se combinam.

Não se trata de procurar culpados nem de promover uma caça às bruxas.

Erros cometidos durante uma emergência não significam necessariamente incompetência, ou má-fé. Muitas decisões foram tomadas com informações incompletas e sob enorme pressão. O problema seria não aprender com elas.

O verdadeiro risco começa quando uma sociedade passa a considerar que questionar uma decisão tomada em nome do bem coletivo é, por si só, um ato contra o bem coletivo.

É assim que o autoritarismo pode se espalhar sem precisar de um autoritário.

Ele pode surgir do medo. Pode surgir da necessidade de segurança. Pode surgir da crença de que determinados especialistas sabem o que é melhor para todos. Pode surgir da convicção de que, diante de uma emergência, quem discorda está atrapalhando. E pode surgir, finalmente, da ideia aparentemente inofensiva de que o poder deve ser concentrado nas mãos de quem sabe o que fazer.

É justamente por isso que precisamos desconfiar não apenas dos maus governantes, mas também das boas intenções quando elas não encontram limites institucionais.

A democracia não foi criada para impedir que pessoas erradas cheguem ao poder. Ela foi criada para impedir que qualquer pessoa que chegue ao poder possa fazer tudo o que quiser.

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