Numa eleição apertada, a ser disputada até o último minuto, qualquer pontinho faz diferença e é aí que entram Gilberto Kassab e o PSD, que têm os 5% de Ronaldo Caiado no primeiro turno como uma boa moeda de troca com Lula para o segundo. Tudo, porém, depende dos escândalos do Lulinha e seus efeitos na eleição.
Kassab, vice na chapa puro sangue de Caiado, já declarou que Flávio Bolsonaro tem “chance zero” de vencer e que a “neutralidade” de PP, Republicanos e União Brasil favorece Lula. Como, na prática, o PSD se embola com esses três partidos no Centrão, reforçar o apoio a Lula no segundo turno não seria estranho nem difícil.

Pelo Datafolha, Caiado dispara no segundo turno. Ele tem 40% e Flávio, 43%, contra 47% de Lula nos dois casos. Logo, Caiado carrega um caminhão de votos da direita, mas o que favorece a negociação do PSD são os 5% do primeiro turno, que podem ir para Lula, Flávio ou nada.
Líder do agro, Caiado é anti-Lula desde criancinha, mas, como médico, não tem boa “química” com os Bolsonaro desde a pandemia. Um cenário previsível, portanto, é que ele deixe as negociações para Kassab, que é bom nisso, costuma manter um pé em cada canoa e, nesta eleição, tende para a “neutralidade” pró-Lula.
Todas as previsões, e especialmente as certezas, porém, esbarram na evolução das campanhas e escorregam na água suja que brota dos escândalos a todo instante. Se é vazamento ilegal ou não, é preocupação (ou discurso) dos candidatos. Para o eleitor, o que importa é o cheiro da água, de onde ela vem e para onde vai.
As pesquisas estão estáveis, mas vão se manter assim até outubro? O quanto as “novidades” sobre o Lulinha e a lobista Roberta Luchsinger podem tirar as chances de Flávio do “zero”? E o que ainda pode surgir do até agora não explicado pedido de “empréstimo” de R$ 134 milhões de Flávio para Daniel Vorcaro? (Já notaram que a dinheirama criminosa, ou suspeita, é sempre “empréstimo”?)
Com as devidas proporções, inclusive nos valores, Luchsinger é uma espécie de Vorcaro do lobby, ambiciosa, sem escrúpulos nem limites, que tem talento para se aproximar do poder e dos poderosos e sonha alto: “ser Fábio” (nome do Lulinha), ganhar “R$ 100 milhões por ano” e gastar na Suíça.
Vorcaro atirava a torto e à direita, mas ela tem foco e mirou no então chefe de gabinete de Lula no Planalto, o Marcola, para quem fazia “empréstimos” (olhaí!), comprava jóias com diamantes, pagava boletos e cartão de crédito, presenteava com carros zero e recebia até o singelo pedido de uma obra de arte de R$ 600 mil. Não era de graça, tinha preço. E quem pagava era o erário.
O grande problema de Lula, como presidente, candidato e personagem da história, nem é Luchsinger, mas o próprio Lulinha, que já lhe dá dores de cabeça desde os primeiros mandatos e, no terceiro, é investigado pela PF por tráfico de influência e receber pagamentos de ao menos um empresário que teria contratado a lobista e ele para negócios no governo.
Se a turma de Lulinha não responde e se limita a reclamar dos vazamentos, a de Flávio bate na tecla de que não havia dinheiro público envolvido no empréstimo fraternal de Vorcaro, que, ora ora, comprava todo mundo e é o preso mais famoso do momento.
Se é assim, o que que tem demais no contrato de R$ 130 milhões do escritório de advocacia da família do ministro do STF Alexandre de Moraes com o mesmo Vorcaro? Uma é “questões pessoal”, outra é “questão profissional” ambas “sem dinheiro público no meio”.
Segundo o advogado Marco Aurélio de Carvalho, na Globonews, Lulinha, coitado, “carrega o peso do sobrenome”. Se não carregasse, porém, talvez continuasse monitor de Zoológico em São Paulo, como antes da Gamecorp e dos primeiros governos do pai, e nunca teria sido amigo de Luchsinger.
Assim como Flávio, que, sem a eleição do pai à Presidência, teria de se contentar até hoje com rachadinhas da Alerj e lojas de chocolate e jamais viraria candidato a presidente ou poderia pedir tantos milhões a banqueiros. Ambos, portanto, não “carregam o peso”, mas sim se beneficiam e lucram com seus sobrenomes.
Já que é assim, tanto fez, tanto faz para o PSD e Gilberto Kassab, que não se importam com sobrenomes, mas com índices de pesquisas e chances de vitória. No fim, o que pesa é sempre o mesmo: poder e dinheiro.