A três dias do primeiro turno, o Supremo Tribunal Federal (STF) chega à eleição de 2026 em um papel inédito: além de decidir conflitos e conduzir investigações que atingem personagens centrais da disputa, a própria Corte e seus ministros passaram a ser alvo das campanhas. Esse movimento ganhou força com o caso Banco Master, que expôs relações de Daniel Vorcaro com integrantes do tribunal, acirrou divisões internas e, na reta final, transbordou para um avanço da Corte sobre a competência e a autoridade do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), no embate em torno de postagens falsas sobre Nossa Senhora Aparecida, envolvendo as campanhas de Flávio Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva.
A mudança ficou explícita no início de setembro. Depois que André Mendonça retirou do sigilo, no dia 1º, um relatório da Polícia Federal (PF) sobre mensagens entre Vorcaro e Alexandre de Moraes, a disputa entre os ministros escalou rapidamente. Moraes pediu a abertura de investigação contra Mendonça e acusou o colega de agir para beneficiar o grupo de Flávio Bolsonaro. Na sequência, decisões conflitantes levaram Edson Fachin a intervir e, em 15 de setembro, o plenário passou a discutir a possibilidade de abertura de uma investigação contra um de seus próprios integrantes. A sessão tornou público um racha que, em plena campanha, já ultrapassava os limites do tribunal.
“É inédita a maneira pela qual o Supremo passou a fazer parte dessa eleição”, resume o pesquisador e professor do Insper Diego Werneck Arguelhes.
As revelações do celular de Vorcaro ampliaram o alcance da crise. O material passou a trazer referências a outros integrantes do tribunal e seus entornos, entre eles Dias Toffoli, Kassio Nunes Marques e Luiz Fux, além do próprio Mendonça. O caso deixou, assim, de expor apenas o confronto entre dois ministros e colocou diferentes alas da Corte sob escrutínio.

De um lado, Moraes passou a contar sobretudo com o apoio de Flávio Dino, Gilmar Mendes e Cristiano Zanin; do outro, Fux e Nunes Marques se aproximaram de Mendonça em episódios centrais do embate. Sob relatoria de Mendonça estão apurações que alcançam personagens dos dois principais campos da eleição, entre eles Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente, e Flávio Bolsonaro, além de casos relacionados a Jaques Wagner, Ciro Nogueira e Cláudio Castro. Moraes e aliados questionam diferenças no ritmo dessas frentes; Mendonça nega direcionamento político.
O conflito interno logo se misturou à campanha. Flávio Bolsonaro dedicou parte de sua propaganda na televisão à crise no STF e associou Moraes ao governo Lula. O petista, por sua vez, buscou se distanciar do tribunal e passou a defender mudanças no Judiciário.
A dimensão desse movimento aparece também na propaganda eleitoral dos candidatos. Levantamento do Estadão identificou mais de R$ 4 milhões em anúncios relacionados ao Supremo, de pedidos de impeachment de ministros a propostas de reforma do Judiciário. O tema ganhou força sobretudo entre candidatos ao Senado, mas se espalhou pela disputa presidencial e pelas campanhas à Câmara e aos governos estaduais.
Para Werneck, porém, o Master não criou esse desgaste, mas funcionou como estopim de uma crise de legitimidade que já vinha se acumulando havia anos, alimentada também pela conduta dos próprios ministros e pela crescente exposição política da Corte.
Ministros do STF avançam sobre competência do TSE
A crise ganhou outro patamar diante de avanços do STF sobre decisões de competência do TSE, hoje comandado por Nunes Marques e com André Mendonça na vice-presidência. O racha aberto no Supremo no Caso Master, e que envolve também os dois ministros, levou a decisões na Corte constitucional que passaram por cima da autoridade da Justiça Eleitoral. Isso levou a uma reclamação de Kassio Nunes Marques junto ao presidente do STF, Edson Fachin.
Como antecipou o Estadão, a possibilidade de choque entre as duas Cortes já vinha sendo discutida antes mesmo do início da campanha. Ministros do STF mais próximos do governo Lula e que pertencem a uma ala contrária a Mendonça e Nunes Marques sinalizavam que poderiam intervir caso considerassem insuficientes as medidas adotadas pelo TSE sob o comando dos dois, que foram indicados ao Supremo pelo ex-presidente Jair Bolsonaro.
Na reta final, essa tensão chegou diretamente à disputa presidencial. Mendonça determinou a retirada de publicações que associavam Flávio Bolsonaro à suposta retirada do título de Padroeira do Brasil de Nossa Senhora Aparecida. O caso chegou ao STF por vias processuais que levaram os pedidos a ministros já relatores de ações anteriores: Dino desautorizou o colega ao suspender a decisão do TSE, mas Fux restabeleceu seus efeitos. Foi quando Nunes Marques reagiu e reclamou de uma “sobreposição de competência” do Supremo sobre a Justiça Eleitoral. Nesta quarta-feira, 30, o plenário virtual do TSE passou a analisar a decisão de Mendonça e a maioria votou para excluir parte de posts que ligam Flávio à retirada do título de padroeira.
Para Ana Laura Barbosa, professora da FGV-SP e do Insper, o ineditismo está na forma dessa interferência e no que ela representa para a relação entre as duas Cortes. “A diferença é a forma de interferência, e sobretudo o que ela representa para a relação entre TSE e STF”, afirma.
Na avaliação da professora, o episódio reúne problemas que já vinham alimentando a crise interna, como o uso de decisões monocráticas nas disputas entre ministros, questionamentos sobre a distribuição dos processos e medidas capazes de produzir efeitos políticos imediatos. “O STF está se propondo a revisitar uma decisão do órgão cuja atribuição é supervisionar as eleições, e muito perto do pleito”, completa.
Crise não termina nas urnas
Os efeitos desse embate irão atravessar a eleição. Na avaliação dos juristas, a exposição dos ministros, as acusações cruzadas de atuação política e o conflito entre STF e TSE colocam em questão não apenas a imparcialidade das decisões, mas também a percepção pública de que a Corte atua de forma equidistante dos grupos em disputa.
Para Marcelo Crespo, coordenador de Direito da ESPM-SP, é justamente nessa percepção que está um dos principais riscos para o tribunal. Se o STF deixa de aparecer apenas como árbitro e passa também a integrar a narrativa eleitoral, afirma, cresce a possibilidade de cada decisão ser interpretada como favorável a um dos campos políticos. “A consequência institucional mais delicada é a erosão do ‘capital de imparcialidade’”, diz.
O desgaste já aparece nas pesquisas. Datafolha divulgado nesta semana mostrou que 47% dos entrevistados avaliavam o STF como ruim ou péssimo, o maior percentual da série histórica iniciada em 2019. Ao mesmo tempo, 68% diziam acreditar que há ministros envolvidos no caso Master.
A própria eleição, por sua vez, poderá alterar a correlação de forças dentro do tribunal. O próximo presidente poderá indicar ao menos três ministros ao STF, com as aposentadorias de Luiz Fux, Cármen Lúcia e Gilmar Mendes até 2030. O número pode chegar a quatro se permanecer aberta a vaga deixada por Luís Roberto Barroso, ainda sem titular após a rejeição de Jorge Messias pelo Senado.
Para Crespo, a disputa em torno do Supremo não se encerra com a campanha. Se a eleição consolidar a percepção de que determinados ministros estão associados a campos políticos, afirma, decisões futuras poderão enfrentar maior resistência, mesmo quando juridicamente fundamentadas.
“A transformação relevante é a passagem de uma Corte que decide conflitos políticos para uma Corte que também precisa administrar conflitos sobre si própria enquanto arbitra uma eleição”, completa.