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Dos clássicos aos assuntos fora do óbvio: 10 temas que podem cair na redação para o Enem

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Tentar adivinhar o tema da redação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) a partir dos assuntos que mais apareceram no noticiário pode levar o estudante à direção errada. Embora a prova trate de problemas concretos do País, o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), responsável pela prova, costuma evitar questões que estejam no centro de disputas políticas no momento do exame. Em ano eleitoral, essa cautela tende a ser ainda maior.

“O Enem prefere grupos ou práticas invisibilizadas, com repertório acessível a estudantes de todas as regiões do país e com uma política pública já existente que sustente a proposta de intervenção”, afirma Daniela Toffoli, coordenadora de Linguagens do Colégio Anglo São Paulo e professora de Redação do Curso Anglo.

Juliany Braghiroli Peridis, assistente pedagógica, e Tatiane Macedo Costa, analista pedagógica da plataforma Redação Nota 1000, também chamam a atenção para assuntos sociais que permitem ao candidato propor ações concretas. “O Enem costuma trazer questões que são de ordem nacional e foca em problemáticas sociais que aceitem propostas de intervenção”, explicam as duas especialistas.

Enem costuma evitar na Redação questões que estejam no centro de disputas políticas no momento do exame.
Enem costuma evitar na Redação questões que estejam no centro de disputas políticas no momento do exame.

Mais do que acertar uma aposta, porém, é preciso entender o padrão da prova. “O valor da lista não está em adivinhar, está em servir de mapa para montar repertório transversal”, diz Bruno Alvarez, diretor de Ensino e Inovações da Geekie Educação. Para ele, o candidato deve observar problemas sociais brasileiros com viés humanístico, ligados a grupos vulnerabilizados e com espaço para a atuação do poder público.

Com base nesse padrão, os especialistas indicam dez possibilidades para 2026.

1) Inclusão das pessoas com deficiência

O Enem já abordou a educação de surdos, mas ainda não ampliou a discussão para as barreiras enfrentadas pelas pessoas com deficiência em diferentes espaços. O tema permite tratar de acessibilidade na escola, no trabalho, no transporte e nas cidades. Para Daniela Toffoli, é uma pauta de “baixíssima temperatura midiática e alta densidade ética”, combinação recorrente no exame.

2) Analfabetismo funcional e formação de leitores

Saber decodificar palavras não significa compreender um texto, avaliar uma fonte ou relacionar informações. Uma proposta sobre analfabetismo funcional poderia conectar educação, desinformação, empregabilidade e participação cidadã, sem depender de uma controvérsia partidária. O candidato também encontraria políticas educacionais e dados nacionais para sustentar uma proposta de intervenção.

3) Desperdício de alimentos em um país com fome

O contraste entre a comida perdida ao longo da cadeia produtiva e a insegurança alimentar de parte da população oferece um problema concreto e soluções palpáveis. Bancos de alimentos, melhoria da logística, aproveitamento de produtos fora do padrão comercial e educação para o consumo são alguns caminhos possíveis. A análise é de Daniela Toffoli, do Anglo, assim como a do próximo tema.

4) Trabalho infantil, um problema que parece superado

O trabalho infantil perdeu espaço no debate cotidiano, embora ainda faça parte da realidade brasileira. A pauta permite relacionar evasão escolar, pobreza, desigualdade e proteção integral de crianças e adolescentes. Também oferece um repertório seguro, apoiado no Estatuto da Criança e do Adolescente e em convenções internacionais.

5) Gentrificação e acesso à moradia

A valorização de bairros centrais pode aumentar aluguéis e o custo de vida até expulsar moradores de menor renda. Juliany e Tatiane, do Redação Nota 1000, observam que a questão do endereço apareceu recentemente no Encceja, sinal de que moradia e pertencimento urbano estão no radar das avaliações. No Enem, o recorte poderia envolver segregação socioespacial, direito à cidade e políticas habitacionais.

6) Transtornos de aprendizagem e neurodivergência na escola

Uma escola inclusiva precisa identificar precocemente sinais de transtornos de aprendizagem e adaptar métodos de ensino. A discussão pode abranger formação de professores, diagnóstico, acessibilidade pedagógica e desigualdade no acesso ao acompanhamento especializado. Bruno Alvarez também vê como possível um recorte sobre a inclusão de pessoas neurodivergentes na educação brasileira.

7) Racismo algorítmico

Sistemas de inteligência artificial são treinados com dados produzidos por sociedades desiguais e podem reproduzir ou ampliar preconceitos. Em vez de discutir apenas as vantagens e os riscos genéricos da tecnologia, o Enem poderia pedir uma reflexão sobre erros e discriminações que atingem principalmente a população negra. O tema aproxima tecnologia, educação racial, transparência e responsabilização das empresas.

8) Proteção de adolescentes no ambiente digital

O recorte pode ir além do uso excessivo do celular. Influenciadores interferem em padrões de consumo, aparência e comportamento em uma fase marcada pela comparação social. As especialistas da Redação Nota 1000 apontam possíveis impactos sobre a saúde física e mental dos jovens, enquanto Bruno, da Geekie, destaca a proteção de crianças e adolescentes e as discussões legislativas recentes sobre o ambiente digital.

9) Educação financeira e endividamento

O aumento do endividamento das famílias abre espaço para discutir uma combinação pouco explorada: falta de formação financeira, crédito, consumo estimulado por publicidade e expansão das apostas. Segundo os dados citados por Juliany e Tatiane, o percentual de famílias endividadas chegou a 82% em julho de 2026. A vantagem desse tema para o formato do Enem é a possibilidade de propor ações educativas e de prevenção.

10) Adaptação climática nas cidades

O meio ambiente não aparece na redação apenas como preservação da natureza. Um recorte menos previsível seria a preparação das cidades para chuvas intensas, calor e outros eventos extremos. Bruno sugere relacionar a pauta à desigualdade territorial, à ocupação de áreas de risco e ao racismo ambiental. Juliany e Tatiane lembram que a COP30, realizada no Brasil, reforçou a presença do país nas negociações climáticas internacionais.

Formulação do tema também pode surpreender

O candidato não deve treinar apenas textos que comecem com “desafios para”. Daniela Toffoli observa que, desde 2022, o Enem tem recorrido a termos como “valorização”, “invisibilidade” e “perspectivas”. A mudança parece pequena, mas interfere na tese e na proposta de intervenção: reconhecer ou valorizar uma prática exige um raciocínio diferente daquele empregado para combater um problema.

Por isso, em vez de decorar uma introdução para cada assunto, a recomendação é exercitar diferentes comandos dentro dos grandes eixos do exame, como direitos humanos, cultura, tecnologia, trabalho e meio ambiente.

Atitudes menos óbvias para a reta final

O rascunho não deve ser uma primeira versão longa e desorganizada. Juliany e Tatiane recomendam usá-lo para visualizar início, desenvolvimento e conclusão, reservando também tempo para a passagem a limpo. A estratégia reduz o risco de chegar à proposta de intervenção sem espaço ou sem ter demonstrado a tese.

Trocar o “repertório de bolso” por conexões explicadas

Citações decoradas, usadas em qualquer tema, podem deixar lacunas na argumentação. Segundo Juliany e Tatiane, a correção mais recente indicou maior rigor nas competências 2 e 3, ligadas à compreensão do tema, ao repertório e à organização das informações. Bruno reforça que o repertório precisa trabalhar a favor do argumento. Não basta mencionar um autor: é necessário explicar por que aquela referência comprova a ideia defendida.

Usar menos conectivos, mas com maior precisão

Encher o texto de “portanto”, “além disso” e “nesse sentido” não garante coesão. Bruno avalia que a correção pode ter se tornado mais qualitativa: um conectivo inadequado à relação lógica pesa contra o candidato. Antes de acrescentar uma expressão, vale perguntar se o trecho apresenta causa, contraste, consequência, conclusão ou continuidade.

Fábio Gusmão, especialista de Linguagens do Sistema Positivo de Ensino, alerta que decorar uma lista de conectivos e distribuí-los pela redação apenas para dar aparência de sofisticação pode prejudicar o sentido. Palavras como “contudo”, “portanto” e “além disso” não são intercambiáveis: cada uma precisa indicar corretamente a relação entre as ideias.

“O conectivo precisa estar a serviço da argumentação”, orienta. Na revisão, o estudante deve observar também se os parágrafos formam uma sequência lógica, se as informações são retomadas de maneira clara e se o raciocínio avança, em vez de apenas repetir a tese com outras palavras.

Revisar a proposta como uma pequena política pública

A intervenção precisa indicar quem fará o quê, de que maneira e com qual finalidade, além de trazer detalhamento e respeitar os direitos humanos. Como as competências funcionam em conjunto, a solução deve responder exatamente ao problema comprovado no desenvolvimento. “O texto é avaliado como um sistema”, resume Bruno.

No fim, a melhor preparação não é montar uma coleção de redações prontas. É aprender a transferir dados, leis, episódios históricos e referências nacionais entre diferentes recortes. Se o tema surpreender, o estudante ainda terá método para interpretar o comando, selecionar argumentos e construir uma intervenção coerente.

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