Nós estamos vivendo nesse caso, como um todo, uma espécie de teste para as nossas instituições. O ministro Dias Toffoli tem razão quando diz que há muitas ilações em todo esse processo. Para combater ou para enfrentar as ilações, só há um remédio: transparência.
Se o relatório da Polícia Federal vier público, como deveria ser a regra − você tem um relatório de alto interesse público, uma investigação que não deveria estar sob sigilo −, as ilações terminam, porque você vai ter a informação objetiva. A sociedade hoje vive à base de informação a conta gotas, obviamente informação seletiva. O ‘diz que disse’ da República.
O ministro diz que não tinha amizade com o Daniel Vorcaro. As informações que chegam sobre esse relatório dizem o contrário, que ele tinha amizade, tinha conversas, tinha convites a eventos, casamentos, aniversários, assim por diante. Isso é verdade ou não? A sociedade tem direito de saber.

O ministro diz que não sabia quem eram os controladores, os gestores do fundo que adquiriu as cotas do resort, que acabou fazendo pagamentos a ele próprio, via empresa familiar. Mas se há menções a esses negócios, a esses pagamentos, nos diálogos com o próprio Daniel Vorcaro, obviamente é uma contradição.
A sociedade tem direito de saber isso, simplesmente isso. Nós estamos falando de um julgamento crucial para o sistema republicano brasileiro, que está sob controle do próprio ministro Dias Toffoli, num caso onde ele tem evidentes conexões familiares, de conhecimento pessoal, inclusive recebimento de recursos, e aqui não estou dizendo que são recursos ilegais, mas negócios familiares e pessoais, e isso tudo é, sim, um critério de impedimento e de suspeição que o próprio ministro deveria ter, de alguma maneira, tomado uma iniciativa.
A pergunta é: sabendo de tudo isso, por que o ministro Dias Toffoli aceitou assumir a redatoria desse caso? Por que decretou sigilo absoluto? Talvez com a expectativa de que pudesse controlar o processo? Talvez com a expectativa de que a mídia, nossa mídia, chamada profissional, agiria como agiu nos últimos anos, nas questões democráticas, nos inquéritos, enfim, no tema da censura prévia, atribuindo ao Supremo uma espécie de poder absoluto, inquestionável, na gestão da salvação da democracia, que isso se aplicaria também a uma questão como essa.
Não está acontecendo. Se o ministro, de fato, alimentou esta ilusão de que pudesse dobrar sempre a aposta, resolver as questões com base em notas, em negativas, impondo sigilos, partindo sempre dessa premissa de que ninguém pode questionar o ministro do Supremo, que ninguém pode sequer investigar o ministro do Supremo, que isso seria antirrepublicano, que isso seria um ataque às instituições…
Nós vivemos isso no caso do Tagliaferro. Há uma denúncia grave, o próprio denunciante se torna réu, é emitido uma nota e o caso é esquecido. Nós tivemos isso quando a esposa do ministro tem um contrato de quase R$ 130 milhões, uma nota, a PGR diz que não há problema nenhum, e o assunto é esquecido e a vida segue.
Eventualmente, o ministro Dias Toffoli imagina que neste caso acontecerá a mesma coisa. Muito barulho, etc., os dias vão passando, vem o carnaval e o assunto morre logo ali adiante.
E obviamente aí tem uma contradição. Ou mantém o processo com todo o desgaste que isso implica, ou envia a primeira instância, mas com a perda, evidentemente, do controle sobre o próprio processo.
De qualquer maneira, nós estamos diante de um teste das nossas instituições. A sociedade exige transparência. É evidente que passou da hora da CPMI no Congresso Nacional, que está na mão do senador Davi Alcolumbre, e de qualquer maneira me parece que desta vez não há tanta passividade por parte de boa parte da mídia, de instituições da sociedade e, oxalá, das próprias instituições. É o que a gente vai acompanhar.