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As estratégias da universidade que briga com a USP pelo topo do ranking: ‘IA nos permite competir’

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Em toda a América Latina, a única universidade a fazer frente a instituições brasileiras de ponta – como USP e Unicamp – nos principais rankings internacionais é a Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Chile.

Qual é a estratégia da instituição do país vizinho para liderar alguns dos levantamentos? A captação de verba para projetos inovadores, aproximação com setor produtivo e investimento em IA estão entre as possíveis respostas para o sucesso da universidade de Santiago.

No recorte da América Latina e do Caribe do último ranking QS, um dos mais tradicionais, a PUC do Chile ficou no topo, seguida pela USP, pelo segundo ano consecutivo. Já no ranking global da revista britânica Times Higher Education, outra referência nesse tipo de avaliação, a instituição paulista lidera entre as latino-americanas, seguida pela Católica chilena.

Em entrevista ao Estadão, o reitor da PUC-Chile, Juan Carlos La Llera, falou sobre a importância (e limitações) dos rankings internacionais, desafios acadêmicos frente à ascensão da inteligência artificial e sobre a importância da investigação científica no continente.

“A IA está democratizando certos processos de pesquisa; permite às nossas universidades na América Latina competir de forma mais igualitária”, afirmou o reitor, de 65 anos, engenheiro civil formado na própria PUC e com pós-graduação na Califórnia (EUA). “Obviamente, não vamos desenvolver grandes modelos de linguagem, porque não temos recursos para isso. Mas usaremos a IA como ferramenta para melhorar a nossa produção científica e tecnológica.”

La Llera disse também que, diante da ascensão de governos extremistas na América Latina – sejam de direita ou de esquerda -, a universidade deve preservar a liberdade de pensamento.

“A universidade é um baluarte do pensamento livre; deve ser capaz de mostrar a pluralidade de pensamento.”

Leia os principais trechos da entrevista:

Como pretende colocar em prática o ambicioso plano estratégico para a universidade até 2030, em um cenário global tão dinâmico? Quais os principais desafios internacionais para se manter na vanguarda na América Latina?

A primeira coisa que devemos transmitir é que muitos dos países na América Latina e no Caribe ainda não internalizaram que uma das únicas formas de desenvolver um país é por meio do conhecimento e da educação. Esse é o primeiro ponto, que está na gênese da estratégia: mostrar à sociedade chilena que por meio da educação de excelente qualidade e da geração de conhecimento, o país pode achar caminhos de desenvolvimento que até agora não encontrou.

O debate político é de curto prazo. Não há tempo para problemas profundos. Os governos, sejam quais forem, precisam executar um plano em quatro anos. Consideramos que, dado o alto grau de confiança na população em relação às universidades, elas são um espaço privilegiado para ter a discussão de médio e longo prazo.

Embora seja um plano extremamente ambicioso para as universidades na América Latina, nos parece que é quase o único caminho possível para que uma sociedade encontre vias de desenvolvimento e oportunidades. Em nível de emprego, ocorre uma mudança radical, e creio que as universidades têm de fazer esforço gigantesco para se adaptarem a essa transformação da empregabilidade.

Podemos falar mais sobre as medidas concretas: potencializar a pesquisa, localizada e situada nos problemas nacionais; reformular a formação dos profissionais, reconhecendo que a inteligência artificial está gerando transformações gigantescas nos primeiros empregos, particularmente.

Em contexto de recursos limitados, como a PUC equilibra pesquisa científica de alto impacto com geração de soluções concretas para as urgências de desenvolvimento do Chile e da América Latina?

Essa é uma das grandes complexidades. O investimento em pesquisa e desenvolvimento no Chile tem estado praticamente congelado nos últimos dez anos. Estes números provavelmente são pequenos para o investimento no Brasil, mas no Chile a Agência Nacional de Investigação e Desenvolvimento entrega cerca de US$ 515 milhões anuais para a investigação, e simplesmente não temos nenhuma possibilidade — dada a escassez econômica e o baixo crescimento do país — de que esse número mude.

Fachada da Pontifícia Universidade Católica do Chile, em Santiago: entre as melhores da América Latina.
Fachada da Pontifícia Universidade Católica do Chile, em Santiago: entre as melhores da América Latina.

Por isso, dentro da estratégia, criamos um fundo de alto risco, o Fondo Avanza UC, que procura contrapartes internacionais para fazer pesquisa de fronteira com um fundo semente (onde se aporta dinheiro em startups e empresas em estágio inicial ou embrionário). Colocamos US$ 4 milhões como instituição, mas não para qualquer pesquisa: é pesquisa de ponta, em parceria com universidades estrangeiras.

Filantropia também?

Sim, mas este fundo especificamente nasceu exclusivamente de poupanças internas da universidade. O Avanza UC procura pesquisa não muito clássica. O que os fundos tradicionais de investigação exigem é que se responda com publicações em rankings WoS (plataforma Web of Science, que tem reconhecimento internacional). Isso muitas vezes faz com que o académico se iniba de avançar com ideias mais novas e frescas.

Este fundo funciona como um capital de risco associado à pesquisa. Em 2025, quando começamos, tivemos 330 candidaturas da comunidade universitária, praticamente o mesmo que a universidade apresenta ao fundo nacional competitivo de investigação. Neste ano foram 512 candidaturas. O crescimento é grande.

E o mais interessante é que esses US$ 4 milhões aplicados alavancaram quatro vezes mais financiamento externo, ou seja, aproximadamente US$ 16 milhões, porque as contrapartes colocam recursos para interagir conosco. É um mecanismo diferente, que não depende do financiamento estatal, e que nos abre uma porta distinta para potencializar a investigação e o desenvolvimento.

Reitor da Pontifícia Universidade Católica do Chile (PUC-Chile), Juan Carlos La Llera.
Reitor da Pontifícia Universidade Católica do Chile (PUC-Chile), Juan Carlos La Llera.

O avanço da inteligência artificial está transformando academia. De que forma a Católica incorpora a IA, tanto nos processos de ensino e aprendizagem quanto na ética da investigação científica?

Assim que assumi como reitor em março do ano passado, criamos uma nova Vice-Reitoria de Inteligência Digital. Viajei para a Califórnia — onde tinha feito a minha pós-graduação — para ver o que as melhores universidades da Costa Oeste dos Estados Unidos fazem com inteligência artificial. Percebi que estavam, facilmente, com uns 5 a 7 anos de vantagem.

Iniciamos um processo de aceleração interna para produzir a transformação, tendo a inteligência artificial como coração da nova Vice-Reitoria. Desenvolvemos uma estratégia com a empresa (de consultoria) McKinsey para criar um plano sobre como mudar os processos formativos, a investigação e a gestão, incorporando IA.

Esta vice-reitoria abrange três grandes mundos, mas o principal é como o processo educativo será alterado pela inteligência artificial. A Católica pertence a várias redes, como a rede U21, que reúne mais de 30 universidades de várias partes do mundo. Para ser franco, a discussão sobre como a IA vai alterar os processos formativos e a investigação ainda não é clara. Ninguém no mundo tem a certeza da profundidade desta transformação na formação.

Certamente há coisas óbvias: a forma de avaliar os estudantes tem de mudar. Já não podemos depender de trabalhos para casa feitos a distância, e estamos apostando fortemente na avaliação presencial e na discussão em sala de aula. A presencialidade ganha papel fundamental porque o objetivo é desenvolver o pensamento crítico dos estudantes, para que a inteligência artificial não iniba seu desenvolvimento cognitivo e intelectual.

Na pesquisa, a mudança é gigantesca, pois a produtividade aumenta muito. Nosso pesquisador mais destacado em dados diz que o tempo de geração de artigos científicos com o apoio da IA caiu, facilmente, para um terço ou um quarto. Há, portanto, mudança substancial no uso da IA como alavanca para produzir pesquisa.

Além disso, áreas como a Matemática estão profundamente desafiadas. O trabalho clássico de um matemático de demonstrar teoremas é invadido pela IA. Há algumas semanas, cerca de 370 hipóteses que os humanos nunca tinham conseguido provar foram demonstradas com o uso de inteligência artificial. Vemos nisso uma oportunidade gigantesca para nivelar diferenças que sempre existiram entre universidades com mais ou menos recursos. A IA está democratizando certos processos de pesquisa, nos permite, na América Latina, competir de forma mais igualitária.

Obviamente, não vamos desenvolver grandes modelos de linguagem, porque não temos recursos para isso, mas usaremos a IA como ferramenta para melhorar nossa produção científica e tecnológica.

O financiamento e a sustentabilidade do ensino superior enfrentam grandes tensões na América Latina. Qual deve ser o novo modelo de colaboração entre Estado, academia pública e privada e setor privado para garantir investigação de excelência?

Pensar que o sistema universitário chileno vai se desenvolver com base em mais apoio estatal é inviável. A única esperança é convocar, com força, a indústria no Chile, e fazê-lo não apenas para resolver problemas pertinentes à indústria, mas também para questões de papel social importante.

O que fazemos, voltando à pergunta anterior, é trabalhar fortemente a filantropia, dentro do Chile e fora. Temos uma fundação nos Estados Unidos que angaria recursos para a Universidade Católica, entre outras vias. Nunca houve necessidade tão imperiosa de depender de uma indústria que assuma a responsabilidade por este grande motor de geração de talentos que são as universidades. Até agora, isso dependia de políticas estatais de financiamento, algo que no Chile não parece viável nos próximos anos, obrigando-nos a procurar alternativas.

Outro ponto é que estamos potencializando a educação ao longo da vida (lifelong learning). Não basta que uma pessoa chegue à universidade com 17 ou 18 anos e termine o seu primeiro ciclo; a formação terá de acontecer em várias etapas ao longo da vida. Estamos impulsionando isso como forma de atrair recursos por meio da educação contínua e profissional, focada nas necessidades da sociedade. Estamos reestruturando o modelo por meio de microcredenciais acumuláveis que depois formam cursos, diplomas, pós-graduações e mestrados. Em resumo: filantropia e crescimento forte da educação contínua e profissional.

Com o avanço de movimentos extremistas na América Latina, como podem as universidades públicas e privadas blindar a sua autonomia científica e garantir a pluralidade de ideias, evitando a polarização política que interfira na qualidade e na liberdade do ensino superior?

Esse é um grande drama, seja qual for a tendência política — extrema-direita ou extrema-esquerda -, qualquer facção com visões que queiram influenciar a universidade para fins alheios aos seus propósitos. A universidade é um espaço de liberdade de pensamento. Se cortar esse elemento na academia, destrói o modelo universitário.

Isso não significa que façamos tudo bem; há coisas a corrigir, programas a avaliar. Mas a verdade é que a universidade tem sido um baluarte do pensamento livre, da capacidade humana de pensar o desenvolvimento sem estar condicionada por interesses de um Estado ou de uma indústria. As pressões vêm de todos os lados, e uma das belezas da universidade é preservar essa liberdade para dizer o que tem de ser dito, quer estejamos perante governos de direita, extrema-direita, esquerda ou extrema-esquerda. A universidade tem de mostrar essa pluralidade de pensamento e defender a liberdade académica.

Se você impõe perfis ou ideias em contratações ou financiamentos de investigação, vai limitar essa liberdade, e isso não convém a nenhum país. A universidade é o espaço onde a sociedade se reflete e pensa a sua cultura. Governos de um lado ou de outro cometem um erro quando tentam controlar essa capacidade. A universidade não é controlável; é um sistema que se autorregula e que precisa dessa liberdade.

A USP e a PUC-Chile se revezam no topo dos rankings universitários regionais. Até que ponto esses indicadores refletem a realidade e o verdadeiro impacto social das instituições na América Latina?

Os rankings, como qualquer ferramenta que tenta quantificar algo complexo, têm limitações, mas apontam tendências relevantes. Sem serem perfeitos, dão uma ideia geral do que se passa.

Analisando o último ranking, a USP e a Universidade Católica estão sempre próximas, juntamente com a Universidade Estadual de Campinas, que também tem desempenho extraordinário. Ambas têm enorme reputação de alunos, ex-alunos e acadêmicos. Ao olhar para os indicadores, a Católica tem uma proporção aluno-professor ligeiramente superior, enquanto nas citações por artigo as universidades brasileiras estão um pouco acima das chilenas. Mas ambas estão no topo do sistema.

Estes rankings são importantes para pessoas de fora do sistema que gostariam de estudar em uma das duas. Quando viajo e entro em contato com reitores de todo o mundo, noto a enorme importância que dão a estes rankings para estabelecer programas conjuntos de pós-graduação ou doutoramento.

Mas há uma questão mais profunda: quanto é que as nossas universidades estão realmente impactando as nossas sociedades? E há dados duros para a América Latina. A América Latina recebe apenas cerca de 1,1% do investimento global em IA, embora represente cerca de 6,5% a 6,6% do PIB mundial. Se o investimento estivesse alinhado com o PIB, deveria ser superior a 6% ou 7%.

Por outro lado, há dados notáveis: 90% da supercomputação na América Latina e no Caribe está no Brasil. O Brasil tem aí uma fortaleza importante. E embora dependamos de grandes empresas globais para a supercomputação, precisamos nos esforçar mais para nos conectarmos às realidades locais.

O Brasil tem feito isso muito bem, mas os recursos na América Latina não nos permitem competir com as grandes universidades do mundo em termos de investimento — embora no talento sejamos absolutamente competitivos. A falta de investimento gera dificuldades em laboratórios e na computação aberta em IA, e precisamos nos atualizar. As nossas universidades não podem gastar tempo com preocupações alheias; têm de focar nas suas próprias sociedades.

Qual a interação da PUC-Chile com as universidades brasileiras?

Temos muita interação com universidades brasileiras, e acredito que isso vai crescer nos próximos anos. Estou interessado em potencializar essa relação, por razões de identidade católica (como a PUC do Rio, com quem temos uma relação próxima) e também com Campinas. Há muito interesse do nosso lado no Chile para abrir portas para as universidades brasileiras.

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