Ele é treineiro, mas também um pouco veterano. Aluno da 2ª série do ensino médio, Otavio Wallis Pierri tem 16 anos e vai fazer a prova do Enem pela segunda vez — também esteve entre os participantes do ano passado. Estudante do Colégio Magno, é um dos cerca de 1 milhão de alunos que prestam neste domingo, 8, a prova, principal porta de entrada das universidades brasileiras, apenas para ganhar experiência — situação de 20,14% dos inscritos nesta edição do exame, ou seja, aqueles que fazem o teste sem terem ainda concluído o 3º ano do ensino médio.
É um recorde. Com 5,6 milhões de inscritos, a prova de 2026 será a maior já realizada pelo sistema.

A ideia de fazer o Enem de forma antecipada é uma estratégia consolidada entre aspirantes a vagas no ensino superior. Escolas e familiares costumam incentivar a prática e especialistas concordam que é um bom jeito de quebrar o gelo — dá ao aluno uma experiência real mais intensa do que os simulados realizados em ambiente escolar.
“Eu acho que não basta conhecer a prova. É preciso conhecer a situação à qual você é submetido”, comenta Otavio, que também prestou Fuvest como treineiro. “Você tem toda essa pressão de estar no local de realização da prova, tem o gerenciamento do tempo, o contato direto com as questões. A natureza do vestibular não é só o conteúdo em si, mas como administrar o espaço, o ambiente e tudo o que está ao seu redor.”
Aluna do Colégio Presbiteriano Mackenzie Tamboré, Isabella Cardoso de Oliveira, de 16 anos, também vai viver a experiência do treinamento. “Decidi me inscrever porque acho que a preparação como treineira é a melhor forma de entender como a prova funciona”, diz.
Ela quer aproveitar o teste para se autoavaliar, entendendo suas facilidades e onde deve focar para melhorar. “Minha expectativa é realmente entender em que nível estou em relação às matérias”, vislumbra.
Professor na Universidade Federal do Amazonas (Ufam), o psicólogo Sérgio Freire concorda que o ganho de experiência como treineiro ajuda o candidato a ficar mais tranquilo na hora em que estiver disputando para valer. “Quando a gente se depara com uma situação nova e desconhecida, o corpo reage com um mecanismo de defesa: a ansiedade”, explica. “A função do treino é exatamente tornar o desconhecido conhecido e, portanto, eliminar essa etapa da ansiedade ruim, a ansiedade que desequilibra.”
“A grande vantagem do jovem fazer o Enem como treineiro é diminuir esse nível de ansiedade da prova real. Afinal, ele já terá conhecido as regras, o sistema e a dinâmica”, afirma Freire. “Com isso, diminui o processo ansiogênico que pode desequilibrar o desempenho.”
De acordo com o psicólogo, desta forma o corpo gasta menos energia “para lidar com uma ameaça” e pode gerenciar esses recursos para a questão cognitiva e a atenção — necessárias para uma boa performance em um teste de conhecimento.
Candidatos mais novos
Neste ano também é recordista o número de inscritos com até 16 anos — são 691 mil, 14% do total.
Outra aluna do colégio Magno, Larissa Costa Orselli é uma das novatas. Tem apenas 15 anos, está na 1ª série do ensino médio e presta o Enem pela primeira vez — também fez a Fuvest neste ano. De acordo com ela, fazer a prova tão nova é uma maneira de ganhar “uma visão” do que a espera lá na frente — “para conhecer a prova e, principalmente, para ver o que eu tenho de fazer para conseguir o resultado que eu quero no 3º ano”, diz.
Quando ouve gente argumentando que “é cedo demais”, Larissa rebate. “Todo mundo fala isso, mas eu gosto de me preparar para o pior”, justifica. “E também pela organização. Acho muito importante conhecer o modelo de prova.”

Otavio acredita que a prova vai ser “cansativa”. “A principal dificuldade do Enem é a administração do tempo”, avalia. “É uma prova extensa, isso já se sabe: no primeiro dia são cinco horas e meia, 90 questões e uma redação. A dificuldade vem desse cansaço. Você precisa manter a mesma constância e o mesmo foco ao longo da prova inteira, e isso é muito difícil. O ser humano não é feito para ficar todo esse tempo com a mesma concentração. Então é tentar fazer essa otimização do tempo e das questões.”
O aluno espera que o exame siga a tendência de incorporar temas e formatos contemporâneos — o candidato comenta sobre “o modelo atual das mídias digitais” e a “incorporação das inteligências artificiais”, mostrando que está afinado.
Mas a prova é apenas um meio para que seja atingido o grande objetivo dessa fase escolar: a almejada cadeira em uma boa universidade. Otavio ainda não sabe exatamente que carreira quer seguir. “Pretendo cursar alguma coisa da área de exatas, talvez alguma engenharia”, diz. Sonha com a Universidade de São Paulo ou a Universidade Estadual de Campinas. “Eu gosto de matemática, geometria, física, química, dos cálculos racionais, desse pragmatismo”, afirma.
Larissa sonha em estudar no Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA). “Sempre fui uma menina de exatas”, conta. Neta de um engenheiro elétrico, a estudante diz ser fascinada por engenharia aeroespacial.
Isabella ainda tem dúvidas: pensa em ciências sociais, mas também em medicina. “Acredito que ambas (as carreiras) andam lado a lado, pois entender a sociedade é também entender o ser humano, tanto por dentro quanto por fora”, comenta. Sonha com uma vaga na Universidade de São Paulo.