Estamos em um mundo pós-moderno. Isso significa que os cínicos, os céticos e mesmo quem sabe um pouco sobre as coisas têm a consciência de que o que chamamos de fatos não determinam nossos posicionamentos sobre o mundo de maneira absoluta. Acontecimentos podem ser eternamente reconstruídos e manipulados em diferentes direções e perspectivas. A política aproveita-se disso. A partir de indícios e fragmentos de acontecimentos, pode-se transformar uma pessoa que nunca cometeu um crime em um facínora. E, ao contrário, fazer de um criminoso uma vítima.
Nesse sentido, a depender de quem você é, de como se posiciona, pode achar o candidato Luiz Inácio Lula da Silva um bandido contumaz e Flávio Bolsonaro uma vítima de armações de poderosos. E pode considerar exatamente o contrário. Lula seria martirizado, enquanto Flávio, sempre protegido por interesses maiores. A questão é como você processa os acontecimentos que recebe.

Se sua intenção é cravar 22 nas urnas no próximo domingo, tende a achar que o atual presidente de fato comandou o maior esquema de corrupção da história da humanidade, o chamado escândalo do Petrolão. Foi condenado em várias instâncias e depois “descondenado” na maior fraude processual da nossa trajetória como nação, conduzida pelo Supremo Tribunal Federal. Acha, por outro lado, que tudo que pesa contra os Bolsonaros, tanto contra o pai quanto contra o filho, armação de mídia. Acredita, por exemplo, que os recursos que Flávio pediu ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro foram para a produção do filme Dark Horse.
Quem vota 13, em geral, não tem dúvidas de que Lula foi condenado em 2017 de maneira não só fraudulenta, mas criminosa. Em uma operação ilegalmente coordenada pelo ex-juiz Sérgio Moro e pelo ex-promotor Deltan Dallagnol. O fato de ambos hoje serem políticos eleitos por partidos de direita serve como prova para essa convicção. O Brasil, por outro lado, corre um dos maiores riscos da sua história com Flávio. O país estaria prestes a se submeter a um miliciano corrupto. O dinheiro que o candidato pediu ao ex-banqueiro foi, claro, utilizado para enriquecimento pessoal do clã.
Essas descrições podem ser enriquecidas com novos exemplos, com novas camadas. Cada nova revelação é processada a partir de suas predileções políticas. A entrevista da suposta lobista Roberta Luchsinger, na CNN, em que ela fala sobre o Lulinha, filho de Lula, uma armação para prejudicar o PT. A matéria da revista piauí, que traz uma história escabrosa envolvendo lobistas de vacina, prostitutas e a presença de Flávio Bolsonaro em uma festa em barco em Brasília, seria “mentira”. As teorias da conspiração surgem daí, para agravar ou atenuar os fatos percebidos. Percebam que, quanto mais radical a posição, mais a culpa de tudo vai para um etéreo e contraditório “sistema”.
É tentador ver tudo isso por uma perspectiva moralista. Partir para expressões como “isso é um absurdo” cada vez que vemos algum político de quem não temos simpatia cair em alguma denúncia. Ou se indignar quando quem gostamos é alvo de alguma incriminação. Mas que tal tentar pensar por que agimos assim, sempre de maneira parcial, apaixonada? E mesmo gritamos algo como “falsa simetria!” ou uma ofensa qualquer a quem tende a se afastar das disputas para melhor entendê-las? O que estaria por trás disso tudo?
Muitas vezes, o nosso posicionamento sobre os “fatos” não é que tenhamos acesso à verdade. Pode ter a ver com nossa formação, nossas circunstâncias, nossos grupos de convivência, local onde vivemos. Pesquisa Meio/Ideia, por exemplo, mostrou que empreendedores tendem a votar em Flávio, e quem prefere um emprego com carteira assinada em Lula. Daí que a própria perspectiva de vida influencia se vamos considerar escândalo contra um político válido ou não. Curioso que isso possa influenciar posições sobre acontecimentos tão díspares como o vandalismo do 8/1/23 ou se conectar até com preferências culturais.
Hoje, as maiores suspeitas de quem deturpa os fatos são as big techs e seus famigerados algoritmos. Antes, eram os meios de comunicação tradicionais. Mas a questão vem de muito longe. Pesquisadores, como o psicólogo canadense Steven Pinker, falam até de fatores genéticos a interferir em posições políticas (a partir de pesquisas com gêmeos criados separadamente). Sarcástico, o filósofo Friedrich Nietzsche, um dos pais do pós-modernismo, chegou a aventar a hipótese de a alimentação ser a responsável por nossas diferenças. Apenas tirava sarro dos nossos becos sem saída em relação às questões de moralidade.
Já pararam para imaginar que talvez, se você nascesse em outra família, em outra cidade, em outra época, poderia ter posições políticas ao contrário do que as que sustenta hoje, e consideraria quem acha bandido uma vítima e vice-versa? Que, em vez de votar em Lula, votaria em Flávio, por exemplo. Que, em vez de anular, votariam em 13 ou 22? Nossas tão profundas convicções podem ter razões mais frágeis que imaginamos. Uma coisa é certa. Tem vida muito difícil quem tenta se ater apenas aos chamados fatos para tirar suas conclusões. Mal consegue sair do lugar.