A Universidade de São Paulo (USP) conquistou nesta semana sua melhor posição na história do ranking Times Higher Education (THE) – 141ª global e no topo da América Latina. Menos de dois dias depois, outro levantamento (o da QS) mostra a mesma USP na vice-liderança da região, atrás da Pontifícia Universidade Católica (PUC-Chile) pelo segundo ano consecutivo.
Afinal, por que os resultados de uma mesma instituição são diferentes? Qual é o melhor retrato?
Tanto a revista britânica THE quanto a QS, do Reino Unido, são referências mundiais em rankings universitários. Um estudo não é melhor que o outro, mas considera indicadores distintos. Além disso, pequenas oscilações de desempenho entre uma edição e outra são frequentes.
- O THE valoriza mais parâmetros de produção científica, com indicadores de pesquisa, ambiente de ensino e internacionalização.
- Já o QS, tradicionalmente, funciona mais como uma espécie de guia para ajudar o estudante a escolher a instituição. Uma das ressalvas a ele é sobre o peso grande para parâmetros de reputação (na comunidade acadêmica e entre empregadores), o que aumenta a subjetividade da avaliação.
Entre as principais barreiras para as universidades brasileiras nos rankings estão:
- Quantidade limitada de pesquisas em revistas de alto prestígio ou com grande número de citações.
- Baixa internacionalização (de alunos e pesquisadores estrangeiros, além de poucas aulas e publicações em inglês).
- No Brasil, a maior parte das instituições de elite é pública, o que cria burocracias para investimentos, contratações e retenção de talentos.
- Na América Latina, a restrição financeira é outro gargalo, pois “pressões fiscais remodelam as prioridades no ensino superior”, conforme Ben Sowter, vice-presidente sênior do QS.
De forma geral, os rankings são ferramentas para mapear méritos e potenciais das instituições. A crítica de especialistas brasileiros aos rankings, porém, se concentra nas limitações de suas metodologias, que favorecem, segundo eles, instituições de países ricos e anglófonos.
Na interpretação dos dados, é preciso ainda levar em conta características como o número de alunos, perfil dos professores, políticas de inclusão social, tipo de pesquisas, modelo de financiamento (público ou privado) etc.

“Rankings precisam de indicadores que sejam mensuráveis e tão objetivos quanto possível. Poucos consideram a relevância social da instituição, ou quanto ela contribui para resolver problemas locais”, diz Leandro Tessler, especialista em ensino superior e professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
Na PUC chilena, por exemplo, são 30 mil estudantes e a USP tem 97 mil. Além disso, a universidade paulista tem outras missões além da pesquisa avançada. Exemplos disso são a ampla oferta de graduação e políticas de inclusão (como as cotas), e as atividades de extensão, com impactos sociais. É uma diversidade de vocações que não se repete em muitas instituições estrangeiras de renome.
Alguns países também conduzem políticas específicas para instituições de ponta, justamente com o objetivo de colocá-las no topo das listas globais e impulsionar a ciência de alto impacto, o que exige investimentos focados.
É o caso da China continental (programa Double First-Class), que prioriza uma lista de instituições e áreas estratégicas, como tecnologia. Hoje, o gigante asiático tem 17 representantes no top 200 do ranking THE. Em 2017, eram apenas quatro.
Os próprios chineses criaram um ranking global – o ARWU, da consultoria Shanghai Ranking Consultancy. Esse privilegia indicadores objetivos, como bases de dados de publicações científicas, e não usa entrevistas ou medições de reputação, como THE e QS. Além disso, valoriza a presença do topo da elite científica, como ter ganhadores de prêmios Nobel entre os alunos egressos.
No ARWU, a USP é a melhor ibero-americana, no grupo entre 101-150 melhores (a posição específica não é divulgada). O Brasil já é o protagonista da América Latina em qualidade universitária, mas tem condição de ir mais longe.
As transformações da geopolítica da ciência – com a ascensão da Ásia e as turbulências nas tradicionais instituições americanas na gestão Donald Trump – também podem reorganizar o tabuleiro global.
Nos últimos anos, as universidades brasileiras passaram a dedicar mais esforços na interpretação dessas listas e definir estratégias a partir delas. A USP criou em 2018 o Escritório de Gestão de Indicadores de Desempenho Acadêmico, que já foi coordenado pelo atual reitor, Aluísio Segurado.
Segundo Renata Ferretti-Rebustini, chefe do escritório hoje, as metodologias e os resultados têm sido monitorados, mas também é necessário compreender a abrangência das atividades da USP e de suas contribuições para a sociedade.
Desde 2019, o Projeto Métricas, apoiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), busca analisar melhor os rankings globais. Ao mesmo tempo, quer construir indicadores que mostrem os benefícios sociais das universidades públicas paulistas e estejam mais conectados com a realidade brasileira.
Como resume Leandro Tessler, “rankings não podem ser ignorados, mas também não devem servir de referência para a elaboração de políticas públicas”.