Um levantamento com mais de 500 mil textos corrigidos no primeiro semestre deste ano mostrou que, embora os estudantes tenham evoluído na argumentação, essa habilidade ainda é um dos maiores desafios para obter uma boa pontuação no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). A pesquisa foi feita pela plataforma Redação Nota 1000, da Cogna Educação.
Na comparação com o mesmo período de 2025, a proporção de textos com problemas de argumentação caiu de 61,65% para 41,73%. Mesmo com a melhora, esse tipo de falha pode representar uma perda média de 80 pontos na competência que avalia a capacidade de organizar informações e defender um ponto de vista.
Os pesquisadores identificaram também dificuldades recorrentes com ortografia, pontuação e uso de referências culturais. A repetição de palavras, outro problema frequente, apareceu em 41,42% dos textos, ante 45,28% em 2025.

As provas do Enem deste ano serão aplicadas nos dias 8 e 15 de novembro, em dois domingos consecutivos.
“Em duas semanas, talvez não seja possível transformar completamente a escrita, mas é possível tornar a redação mais consistente e estratégica, sem comprometer o bem-estar do estudante”, afirma Carolina Siequeroli, gerente sênior da Redação Nota 1000.
Segundo ela, a evolução na argumentação está relacionada ao exercício da escrita, produzir textos com frequência permite ao estudante reconhecer erros recorrentes, aprimorar a argumentação, organizar melhor as ideias e desenvolver maior segurança para atender às exigências da prova.
O levantamento reúne redações de estudantes das três séries do ensino médio, com predomínio de instituições particulares, responsáveis por 99,5% dos alunos no recorte por perfil escolar. Os resultados, portanto, não representam necessariamente o desempenho de todos os estudantes brasileiros.
Dificuldade de desenvolver argumentos
Embora tenha diminuído em relação a 2025, a dificuldade de desenvolver argumentos apareceu em 208.165 ocorrências nas correções realizadas neste ano. Em geral, o problema está na apresentação de ideias que não são suficientemente explicadas ou relacionadas à tese defendida.
É o caso do estudante que faz uma afirmação, mas não demonstra suas causas, consequências ou de que maneira ela contribui para sustentar o ponto de vista apresentado na introdução.
“Essa é uma habilidade que exige prática contínua e acompanhamento de longo prazo”, afirma Carolina.
O impacto na nota pode ser expressivo. Segundo a pesquisa, falhas de argumentação representam uma perda média estimada de 80 pontos na Competência III. Já problemas relacionados ao repertório e à coesão textual podem custar, em média, 40 pontos nas respectivas competências.
Na avaliação de Carolina, o candidato que ainda apresenta dificuldades nessa área deve aproveitar os últimos dias para exercitar a construção dos argumentos, procurando estabelecer relações mais claras entre as ideias e evitar afirmações genéricas.
Citações decoradas, o chamado ‘repertório de bolso’
Não há problemas em recorrer a frases de filósofos, escritores ou personalidades conhecidas, exceto quando essas citações não têm relação consistente com o tema. É o chamado “repertório de bolso”.
A pesquisa registrou 10.418 ocorrências desse tipo, além de 48.778 apontamentos de repertório não legitimado e 25.629 problemas de articulação entre referências e argumentos.
Carolina explica que a forma de avaliar esse tipo de recurso passou por mudanças, o que pode ajudar a compreender a queda na nota média da Competência II em relação a 2025.
Uma citação pode até ter relação com o assunto proposto, mas, se não contribuir efetivamente para a argumentação, pode impedir o candidato de alcançar os 200 pontos da competência.
Os dados mostram que a capacidade de utilizar referências de maneira produtiva melhora ao longo da vida escolar. Na primeira série do Ensino Médio, 33% dos repertórios considerados pertinentes também foram classificados como produtivos. Na terceira série, esse percentual chegou a 46,5%.
A diferença sugere que, com o avanço da escolaridade, os alunos conseguem estabelecer relações mais consistentes entre seus conhecimentos e os argumentos apresentados.
Ortografia, vírgulas e repetições
O levantamento mostrou também 967.155 apontamentos de ortografia e 945.227 relacionados ao uso da vírgula, além de falhas de concordância, acentuação, crase e regência.
Esses números correspondem às ocorrências identificadas nas correções, e não à quantidade de estudantes que cometeram cada erro. Uma mesma redação pode apresentar vários problemas.
Em 2025, erros de ortografia apareciam em 74,29% dos textos analisados, enquanto os de pontuação estavam presentes em 71,34%. Neste ano, as duas categorias permaneceram entre as mais frequentes na Competência I, que avalia o domínio da modalidade escrita formal da língua portuguesa.
Na Competência IV, responsável pela coesão textual, a repetição de palavras lidera os apontamentos. O percentual de redações com esse problema recuou de 45,28% para 41,42%, mas ainda representa uma parcela considerável dos textos.
“Para evitar essas falhas, é necessário trabalhar a articulação entre as diferentes partes do texto, diversificar adequadamente o vocabulário e observar se cada período e cada parágrafo estabelecem uma relação clara entre si”, orienta Carolina.
Ela ressalta que a coesão não depende apenas do uso de conectivos. O candidato precisa garantir que as ideias avancem de um parágrafo para outro, sem repetições desnecessárias ou mudanças bruscas de raciocínio.
Falhas que zeram a nota
Nem sempre os erros mais frequentes são os mais prejudiciais. O levantamento identificou 1.487 casos de fuga total ao tema, 782 redações em branco e 295 textos com número insuficiente de linhas, situações que podem resultar em nota zero.
Também foram registrados 5.521 casos de tangenciamento, equivalentes a 1,92% do conjunto de redações considerado nessa análise. Isso acontece quando o estudante aborda apenas parte do tema solicitado, deixando de contemplar o recorte definido pela proposta.
Nesses casos, as notas das Competências II, III e V ficam limitadas a 40 pontos cada, independentemente da qualidade de outros aspectos do texto.
Por isso, Carolina recomenda atenção especial à leitura da proposta. Antes de escrever, é importante identificar o assunto central, compreender exatamente o que está sendo pedido e avaliar se os argumentos escolhidos respondem à questão apresentada.
O que ainda dá tempo de fazer?
Com pouco tempo até a prova, Carolina considera mais produtivo revisar dificuldades já identificadas do que tentar aprender uma grande quantidade de conteúdos novos.
A especialista recomenda três cuidados:
1. Treinar a interpretação do tema e o planejamento da redação
Escolher propostas de anos anteriores, identificar as palavras centrais e exercitar a elaboração de uma tese e de dois argumentos. O objetivo é ganhar segurança na compreensão do tema e na organização das ideias antes de começar a escrever.
2. Revisar a argumentação, sem decorar novas citações
Em vez de memorizar frases de autores ou referências culturais que talvez não se encaixem na proposta, vale trabalhar com conhecimentos que o estudante já domina. O mais importante é conseguir explicar por que determinada informação é relevante para a discussão e como ela sustenta o argumento.
3. Fazer uma lista dos erros mais frequentes
As últimas redações corrigidas podem servir de referência para uma revisão direcionada. A lista deve incluir problemas recorrentes de ortografia, concordância, pontuação e repetição de palavras, além de aspectos como desenvolvimento dos argumentos e conexão entre os parágrafos.
Também é importante conferir se a proposta de intervenção apresenta agente, ação, meio ou modo de execução, efeito esperado e detalhamento de pelo menos um desses elementos.
Segundo Carolina, o planejamento, a organização dos parágrafos, a redução de repetições e o uso mais adequado de referências conhecidas são aspectos que ainda podem melhorar nesse período. Já o domínio da norma-padrão, a ampliação do vocabulário e o desenvolvimento de uma argumentação mais sofisticada dependem de um trabalho de longo prazo.