Quem apreciou a acirrada, rocambolesca e agoniante eleição presidencial brasileira deste ano, conta com uma nova rodada de jogos vorazes. Agora é a disputa pelo Senado federal em que está em jogo a recondução do presidente da casa, Davi Alcolumbre (União), marcada para fevereiro de 2027. O desfecho indicará quão controlável ou acidentada será a trajetória do governo Lula 4. Para minimizar as inevitáveis crises da sua gestão, Lula precisará apostar suas fichas e movimentar seus meios a favor do senador amapaense. Uma ironia e tanto em relação a um parlamentar que, há alguns meses, era um dos maiores desafetos do petismo, pela articulação bem-sucedida contra o indicado e derrotado para uma vaga no Supremo Tribunal Federal (STF), Jorge Messias.
Do outro lado, um PL turbinado com 28 cadeiras. Sua pauta é cristalina – tumultuar o governo. A começar pelo impeachment do ministro do STF, Alexandre de Moraes. Da boca para fora, pelas ligações espúrias e milionárias com o gângster Daniel Vorcaro. À boca não tão pequena, pelo conjunto da obra. Querem vingança contra o magistrado que conduziu a condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado, assim como determinou penas rigorosas a todos os envolvidos, inclusive os peixes pequenos que depredaram a Praça dos Três Poderes no infortunado 8/11/23.

O PL, com a candidatura do senador Rogério Marinho (RN), apresenta seus trunfos. Cerca de 30 dos 54 senadores eleitos basearam suas campanhas na expulsão dos ministros do Supremo. Por outro lado, Alcolumbre, também chamuscado pelo caso Vorcaro, avisou, há tempos, que mesmo que todos os senadores peçam o impeachment de algum magistrado da alta corte, ele nada fará. Portanto, chegamos a um impasse.
A senadora Teresa Cristina, do PP-MS, também se lançou na disputa à presidência, contra a posição oficial da federação PP-UB, de apoio à reeleição de Alcolumbre no Senado. Ainda não está claro se prejudicará Marinho. Se, por um lado, divide a oposição, por outro, representa uma divergência na federação. A soma dos votos nos dois quadros, em nome do mais bem colocado, pode derrotar Alcolumbre.
Não se pode descartar que se cometam erros bisonhos no caminho. Não será espantoso se os radicais bolsonaristas, abrigados nas catacumbas das redes, passarem a atacar Teresa, fortalecendo o candidato da situação. Haveria também os senadores do PL que seriam na verdade representantes do centrão, ou seja, estariam dispostos a qualquer negócio. O deputado Nikolas Ferreira, do alto de sua força digital, tem direcionado seus vídeos contra Alcolumbre e incomodado o incumbente, que reagiu com discurso da cadeira da presidência da casa. Em jogo, também, uma disputa é de vida ou morte para o futuro a curto e médio prazo da oposição.
O que não se pode desprezar, ao contrário, é a capacidade da caixa de ferramentas na mão de Alcolumbre hoje. Além de sua reconhecida habilidade política (aqui não dizemos se para o bem ou para o mal), ele conta com ajuda da máquina federal lulista, experiência e com uma visão 360 graus do Senado. A tradição mostra que tem sido difícil tirar gente das cabines de comando no Brasil. Quem não se interessa pelo futuro do país poderia apenas pegar a pipoca e acompanhar o desvendar dessa trama. Pena que estamos todos envolvidos.