Representantes de alunos da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP) fizeram um vistoria informal das condições do prédio e apontam problemas como carteiras quebradas, goteiras, fios expostos, mofo e buracos nas paredes das salas de aula e até do salão nobre da instituição, que fará 200 anos em 2027.
O relatório, entregue à direção e ao qual o Estadão teve acesso, tem mais de cem páginas com fotos e descrições das instalações no Largo São Francisco. Os estudantes dizem temer novos incidentes após o incêndio em um dos prédios da faculdade no fim de fevereiro.
A diretora da faculdade, Ana Elisa Bechara, que tomou posse na semana passada, disse ao Estadão que o prédio tem passado nas últimas décadas por grandes renovações e um processo de adoção de salas de aula por ex-alunos doadores.

Mas que, após o incêndio, ela pediu à reitoria da USP uma revisão de parte elétrica e hidráulica do prédio, serviço que precisa passar por licitação. “Tudo aqui é tombado (pelos órgãos do patrimônio histórico), qualquer coisa que se faça. Se tiver que limpar uma pixação, precisa de autorização”, afirmou.
O prédio histórico – construído nos anos 1930 após a demolição do antigo convento onde surgiu a faculdade de Direito em 1827 – foi tombado como patrimônio estadual e municipal em 2022. Ele é considerado um marco da história cultural do País e um exemplo da arquitetura neocolonial e do barroco brasileiro.

O incêndio na noite do dia 26 não atingiu o prédio principal e, sim, um anexo adquirido recentemente pela USP para as aulas de pós-graduação, onde funcionou a então Escola Prática de Comércio, no início do século 20. Informações preliminares apontam que as chamas começaram após curto-circuito no sistema de ar-condicionado.
“Já falávamos dos problemas de estrutura havia muito tempo, mas os alunos pareciam conformados por se tratar de um prédio público e antigo. Depois do incêndio, o assunto veio à tona muito forte”, conta o aluno do 4º ano e represente discente na congregação (órgão máximo) da faculdade, Alexandre Stevanato Alves Ribeiro. Ele é um dos responsáveis pelo relatório. “Temos medo de acontecer uma tragédia.”


Segundo ele, o documento sobre a estrutura do prédio já havia começado a ser feito em janeiro e foi finalizado após o incêndio. “Os problemas identificados envolvem questões de manutenção, conforto e funcionamento de equipamentos essenciais nas instalações da faculdade, o que impacta o cotidiano de estudantes, docentes e funcionários”, diz o relatório.
No salão nobre, espaço solene da faculdade, onde se realizam eventos e concursos para professores titulares, há infiltrações no teto. Na sala Teses de Láurea, local de encontro dos estudantes, os alunos registraram carteiras quebradas e goteiras.
Há ainda fios expostos nos banheiros e em salas de aula, vidraças quebradas, estofados rasgados. Segundo estudantes, são comuns também problemas em sistemas de som das aulas, elevadores, falta de sabonete e papel nos banheiros.



Em algumas salas, os alunos evitam sentar embaixo de tetos com infiltrações e mofo por medo de que caíam sobre suas cabeças. Numa aula recente, a turma toda ficou presa no local porque a maçaneta da porta caiu e não era possível mais abrir.
Segundo a diretora, muitas das questões são de manutenção e “relacionadas à utilização do espaço”. Ana Elisa contou que, assim que assumiu, criou uma nova comissão de patrimônio na São Francisco. “Um dos braços da comissão é a conscientização dos alunos do cuidado com o espaço”, afirma.
Com relação ao teto do salão nobre, ela afirmou que durante a reforma do telhado, a chuva molhou a estrutura interna. Segundo a diretora, esse local será pintado em breve.
O documento não passou por vistoria técnica especializada. Segundo os alunos, a intenção é a de apontar os problemas para a direção tomar providências. “A gente não se colocou na posição de engenheiro, não é um relatório para embasar uma reforma, é para apontar situações de risco que os estudantes vivem diariamente”, diz Ribeiro.


O fogo no antigo prédio da Fecap ficou restrito a uma parte do mezanino e não houve danos estruturais. Áreas como o Acervo Histórico também ficaram preservadas, segundo a faculdade. Como não havia pessoas no local no momento do incêndio, ninguém ficou ferido.
Um dia após o incidente, o Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental de São Paulo (Conpresp) e o Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado (Condephaat) receberam ofícios pedindo pela autorização das obras emergenciais no local. Ambos os órgãos aprovaram as medidas.
O reitor da USP, Aluísio Segurado, esteve no local, acompanhado de engenheiros, que realizaram avaliação técnica em conjunto com os órgãos de controle.