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Educação integral: caminho para reduzir desigualdades

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O Brasil ainda convive com índices preocupantes de aprendizagem. Segundo o Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) de 2023, somente 36% dos alunos do 9º ano do ensino fundamental alcançaram proficiência satisfatória em Língua Portuguesa. Em Matemática, o índice cai para 16%. Para especialistas, a educação integral — que combina jornada estendida com um currículo diverso, voltado ao desenvolvimento cognitivo, socioemocional, físico e cultural — é um dos caminhos mais consistentes para enfrentar o quadro.

“Não basta apenas ampliar o tempo na escola. É preciso que esse tempo seja usado com intencionalidade pedagógica, de forma a integrar conhecimento acadêmico, artes, esportes e cultura à formação dos estudantes. Os conteúdos devem ser contextualizados a partir do território e da realidade dos alunos”, ressalta Patricia Mota Guedes, superintendente do Itaú Social. “Isso deve ser implementado em uma escola com infraestrutura de qualidade, professores com boa formação e condições de trabalho, com um ambiente escolar saudável, que valorize as diferenças, seja acolhedor, de confiança e ofereça segurança emocional”, complementa.

Alunos da rede de ensino de Rubiataba (GO) participam de atividades fora da escola
Alunos da rede de ensino de Rubiataba (GO) participam de atividades fora da escola

Impacto na aprendizagem

Exemplos brasileiros e internacionais reforçam os ganhos. Em Pernambuco, o modelo de ensino médio integral elevou as notas dos estudantes no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), indicando avanços consistentes tanto nas disciplinas regulares quanto nas atividades complementares. No Chile, escolas que expandiram a jornada tiveram resultados positivos, sobretudo para alunos de zonas rurais e de escolas públicas, ampliando a equidade. Já uma análise realizada pelo Observatório Fundação Itaú aponta que escolas em tempo integral conseguem melhorar significativamente o desempenho dos alunos em Matemática e Português.

No Brasil, experiências em cidades de Pernambuco, Ceará e Espírito Santo confirmam a tendência. Em Pernambuco, escolas de tempo integral chegaram a registrar taxa de aprovação 15 pontos porcentuais acima da média nacional. “A educação integral é um ganha-ganha: beneficia alunos, famílias e professores, além de impulsionar a economia local no longo prazo”, resume Priscila Cruz, cofundadora e presidente executiva do Todos Pela Educação.

O desafio da equidade

Apesar dos avanços, os dados do Anuário Brasileiro da Educação Básica 2025, do Todos Pela Educação, mostram um cenário desigual. Enquanto o ensino médio em tempo integral passou de 5,3% em 2014 para 22,6% em 2023, houve queda na oferta nos anos iniciais do fundamental — de 20,5% para 17,7% no período. Para Priscila, o movimento revela prioridades distorcidas. “É preocupante ver retrocessos logo na etapa da alfabetização. O fundamental 1 não pode ser negligenciado, porque é a base de toda a trajetória escolar”, afirma.

A exclusão também tem recorte social. “São os estudantes mais pobres, negros, indígenas e moradores de áreas rurais que mais abandonam a escola”, lembra Veronica Gomes dos Santos, diretora de Implementação e Parcerias com Redes de Ensino do Instituto Escolas Criativas. Ela defende políticas intencionais para garantir que a expansão não fique restrita às escolas com melhor infraestrutura. “Educação integral de qualidade exige rever a matriz curricular, valorizar o professor e conectar a escola ao território, com projetos que façam sentido para a comunidade”, completa.

Voz dos adolescentes

A necessidade de repensar a escola também é apontada por Patricia Mota Guedes, superintendente do Itaú Social. Ela destaca resultados de uma escuta nacional com mais de 2 milhões de adolescentes, que revelam demandas claras: “Eles querem mais tempo para Matemática, mas também pedem movimento, projetos mão na massa e atividades fora da escola”.

Segundo Patricia, o dado mais preocupante é o desencanto dos jovens: quase metade não enxerga a escola como espaço de aprendizagem e 40% não a percebem como ambiente de acolhimento. “Isso mostra que a simples extensão da jornada não basta. A escola precisa se reconectar com a vida real dos estudantes e oferecer experiências significativas, que unam conhecimento acadêmico, cultura, esporte e vínculos comunitários”, diz.

Política de Estado

Para as especialistas, a consolidação do modelo depende de uma política nacional consistente, com recursos e continuidade. Estudos reunidos pela Fundação Itaú apontam que o custo por aluno em escolas integrais é quase o dobro do parcial, mas os retornos compensam: jovens que cursam ensino integral têm maior empregabilidade, salários superiores e menor propensão à evasão e à vulnerabilidade social.

“O próximo Plano Nacional de Educação é uma oportunidade para pactuar metas claras e garantir continuidade, independentemente de mudanças de governo”, defende Priscila Cruz. “Educação integral deve ser prioridade, porque é um dos investimentos com maior retorno social e econômico que o Brasil pode fazer”, conclui.

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