Aproximam-se as eleições e os ânimos, de fato, ficam exaltados. A vitória de um grupo político não é mais percebida como uma possibilidade democrática, mas como uma anulação existencial. Um êxito do senador Flávio Bolsonaro, por exemplo, é visto, por muitos, como a certeza do fim das instituições no Brasil e o começo de uma trilha irreversível a uma autocracia tropical.
Cada um com seus medos, fundamentados ou não. Para muita gente, inclusive não bolsonaristas, o comportamento de muitos integrantes do Supremo Tribunal Federal nos últimos meses seria uma prova de que a deterioração institucional estava em curso, mas comandada pelo Partido dos Trabalhadores, de Lula. A questão, contudo, é combater essas supostas ameaças com o veneno da intolerância. Igualar-se a quem aponta ser o algoz.
No caso de parte da esquerda, por exemplo, instaurou-se o que no submundo das redes foi chamado de marcatismo moreno. Pessoas públicas que seguiam suas vidas foram coagidas a declarar suas posições políticas sob pena de opróbrio moral. Obviamente, para quem coordena ou apoia este tipo de campanha, só se aceita que um lado seja escolhido – o dos próprios. Truculento? Sim.

A constatação de que, nos últimos anos, um grupo que podemos chamar aqui de “esquerda maniqueísta e castradora” colocou ações como lutas sociais universais em segundo plano para passar a combater dentro da cultura, tentando coibir comportamentos, posições e mesmo hábitos linguísticos da sociedade, tornou-se energético para os movimentos de reação. Em boas palavras, cada vez que algum militante vem a público ditar regras de como os outros devem se comportar, votar ou mesmo falar, está alimentando a força do adversário.
Curioso que pessoas que defendem esse tipo de atitudes afirmem “combater o fascismo”. Se pensarmos nesse movimento político não como um termo ofensivo, mas como um conjunto de características situadas na história, principalmente na Itália dos anos 30 do século passado, vai constatar que essa corrente de pensamento tinha como característica fundamental o controle do Estado sobre a sociedade a partir de um grupo específico. No limite, é possível concluir que quem defende ações como coagir artistas, forçar posicionamentos à despeito das liberdades individuais, age, tecnicamente, da mesma maneira como os que dizem opor-se: os famigerados fascistas históricos.
Invoca-se até mesmo o famoso (mas pouquíssimo lido e estudado) paradoxo da intolerância, do filósofo liberal austríaco Karl Popper, para sermos intolerantes com o bolsonarismo. Judeu, exilado na Oceania pelo nazismo, Popper apontava os riscos de uma excessiva tolerância com ações intolerantes que acabassem por fazer sucumbir a própria institucionalidade. O que pouca gente comenta dessa ideia, que está em um pé de página de uma obra de cerca de 900 páginas (A sociedade aberta e seus inimigos), em boa parte dedicada a desconstruir o platonismo, o hegelianismo e o marxismo, é que, mesmo com esses riscos, Popper não defendia uma ação autoritária como solução contra os extremistas. Insistia na força dos argumentos para solucionar esse tipo de anomalia.
O filósofo era consciente de que o autoritarismo gera autoritarismo. Popper achava que a grande vantagem da democracia não era a escolha do melhor, mas a possibilidade de tirarmos o pior, institucionalmente, sem derramamento de sangue. Não é muito. Mas seria o máximo que, como humanidade, poderíamos chegar.
Numa especulação indevida, talvez seja possível deduzir que, de seu túmulo, Popper deploraria Flávio Bolsonaro. Se essa fosse a vontade do eleitor, entretanto, deveria tomar posse e governar. Que as instituições sejam fortes o suficiente para que os brasileiros, se quiserem, democraticamente, botem o jovem bolsonarista para correr, no voto, sem pancadaria, entregando o cargo para o sucessor após as próximas eleições em quatro anos. Em tempo, as instituições conseguiram resistir às investidas do pai de Flávio, Jair Bolsonaro, para seguirmos no melancólico e leve otimismo popperiano.
Um dos argumentos políticos que sustenta o chamado bolsonarismo, inclusive, é o de que são eles que sofrem as perseguições e lutam pela “liberdade”. É, com certeza, uma alegação contraditória quando se sabe que o movimento se alimenta também da nostalgia do período ditatorial brasileiro e já falou abertamente em “intervenção militar”. Hipócrita, também, porque sempre que possível estão na justiça para fazerem calar movimentos de opinião de seus adversários. Nesse sentido, e em tantos outros, é preciso ficar vigilante, mas evitando um novo paradoxo, bastante comum nessas eleições, o da ação fascista em nome do combate ao fascismo.