Falas histriônicas, colete preto imitando o de um policial, adesivo refletivo do lado esquerdo do peito com os dizeres “fiscal do povo”. Era assim que o deputado André Janones, na época filiado ao Avante, rodava Minas Gerais entre 2019 e 2020, ao lado do agora governador eleito Cleitinho (Republicanos), que era deputado estadual pelo PPS.
Hoje em lados opostos do espectro político, foram aliados e fiscalizavam juntos o uso de recursos no Estado. Apesar das diferenças na seara política, continuam próximos.
“Cleitinho é um amigo. A gente diverge em questões políticas, mas tenho absoluta convicção da capacidade dele, da competência e boa intenção”, afirmou Janones à Coluna do Estadão.
A dupla de fiscais ganhou projeção ao percorrer cidades mineiras criticando políticos e denunciando ambulâncias e ônibus escolares abandonados e desvio de verba em obras públicas. “Incomodaram muita gente”, afirmou um político mineiro.

Uniforme dos ‘fiscais do povo’
“Fiscais do povo na rua mais uma vez, provando que não falta dinheiro, falta VERGONHA NA CARA!”, escreveu Janones na legenda de um vídeo publicado em maio de 2019, embalado por uma música de suspense.
Enquanto o deputado federal usava o colete e calça jeans, o “uniforme” do “fiscal” Cleitinho, como de costume, era camisa de futebol, bermuda e tênis.
“Não entregam os ônibus escolares, aí fala que o Estado não tem dinheiro. Faz sentido? A administração publica é burocrática e incompetente”, criticou Cleitinho, que a partir de 2027 estará do “outro lado do balcão” e será responsável por comandar Minas Gerais.
“Deputado não é eleito só pra destinar emenda, não, deputado tem que fiscalizar”, cobrou Janones, no mesmo tom “urgente” com que se dirigia ao “Exército do Lula” durante a campanha nas redes sociais que ajudou a eleger o presidente Lula.
O início da vida pública
Cleitinho e Janones começaram juntos na política mineira e, segundo o próprio deputado afirmou à Coluna, não tinham “letramento ideológico”. Quando o governador eleito resolveu apoiar a família Bolsonaro e o parlamentar se aproximou do presidente Lula, se afastaram, mas apenas no ringue político.
“Quando eu fui para o lado do Lula e ele do Flávio nos afastamos, mas temos respeito. Tenho ele como um cara talentosíssimo e me identifico com ele pelas pautas populares”, disse Janones. “Assim como ele, eu também não tinha muito letramento ideológico, não sabia se era de direita ou esquerda, a gente estava do lado do povo”, resumiu.
Durante as eleições deste ano, o deputado surpreendeu eleitores ao dizer que Cleitinho é um político de esquerda, mas da “esquerda popular”.
“Cleitinho é de esquerda, mas não dessa esquerda caviar nojenta, elitista e arrogante, que muitas vezes conversa mais consigo mesma do que com o povo. É da esquerda popular, que fala de salário, emprego, comida na mesa e dignidade”, escreveu o mineiro sobre o ex-companheiro de luta.
Na mesma publicação, Janones afirmou que o governador eleito, que declarou apoio a Flávio Bolsonaro (PL) na disputa presidencial, também é de direita.
“Então ele é de direita ou de esquerda? Ele é POVO!”, escreveu o deputado.