A abstenção nas urnas está diretamente ligada à crise das instituições como a que atinge o Supremo Tribunal Federal (STF). Além disso, o “baixo custo” de não ir votar vira um fator a mais para a ausência daqueles que estão desmotivados com o processo eleitoral. A conclusão é de um estudo do Pacto pela Democracia, obtido pela Coluna do Estadão.
A organização acompanha há dois anos as narrativas de desconfiança sobre o processo eleitoral e seus efeitos na valorização do voto e na participação nas urnas. No período, realizou grupos de escuta em diferentes regiões do País e mapeou centenas de mensagens e narrativas que circulam nas redes sociais desde as eleições de 2018 e de 2022.
Helena Salvador, coordenadora do projeto Confia desenvolvido pelo Pacto pela Democracia, destaca que enquanto os brasileiros reconhecem a importância do voto e demonstram disposição para participar do processo eleitoral. Mas também existe uma percepção de que não é um prejuízo não votar.
“A abstenção pode ser motivada pela percepção de que justificar a ausência é algo muito barato. Isso é atravessado pela falta de entrega dos eleitos em resultados concretos na vida das pessoas”, afirma Helena.

A organização também verificou que a propagação de fake news sobre as urnas eletrônicas continua sendo um dos pontos que reforçam as retóricas de falta de confiança nas instituições brasileiras. Ou seja, embora as críticas infundadas ao sistema de votação não sejam mais um tema específico das eleições, como ocorreu em 2022 com o bolsonarismo sustentando esse discurso, a cisma ainda desmotiva parte do eleitorado.
O projeto Confia, do Pacto pela Democracia, analisou mais de 700 conteúdos relacionados a ataques às eleições, e concluiu que 45% deles falavam do sistema de votação. Os conteúdos apresentavam distorções e fake news sobre um dos sistemas mais modernos do mundo.
TSE e confiança nas eleições
A coordenadora do projeto afirma que o caminho para recuperar a confiança nas eleições e conter a tendência de queda na participação eleitoral deve aliar o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e a sociedade civil.
“Especialmente em um momento em que as instituições perderam parte de sua credibilidade, esta deve ser uma tarefa coletiva que vai além dos anos eleitorais e pode ser planejada de forma coletiva e contínua para reverter a tendência de aumento da abstenção e fortalecer a participação democrática”, defende Helena Salvador.
Dados da pesquisa Atlas/Estadão citados pelo Pacto pela Democracia também ajudam a dimensionar relação entre a falta de confiança nas instituições e o aumento da abstenção nas urnas. Entre aqueles que afirmaram não confiar no STF, 73,7% disseram não ter votado no segundo turno de 2022. Entre quem disse confiar na Corte, o porcentual de pessoas que não votaram no mesmo pleito foi de 22%.