A tecnologia chegou às escolas brasileiras antes que os professores estivessem preparados para lidar com ela, o que causou um receio da inovação, acredita a brasileira Débora Garofalo, que recentemente ganhou o prêmio de professora mais influente do mundo.
“O problema é que muitas vezes ela é vista apenas como ferramenta. Pouco se trabalha a tecnologia como objeto de conhecimento, algo que o estudante precisa compreender criticamente”, afirma, em entrevista ao Estadão. O prêmio deste ano foi por sua atuação nas redes sociais e veio depois de outro reconhecimento: ela foi primeira sul-americana a ser finalista do Global Teacher Prize, em 2019, que é uma espécie de Nobel da Educação.
Débora chamou a atenção ao liderar um projeto de robótica com sucata em uma escola municipal de São Paulo, cercada por quatro favelas. As crianças aproveitavam o lixo para construir sensores para córregos que alertavam sobre enchentes ou sistemas de acessibilidade para pessoas com deficiência. “Nós temos problemas estruturais importantes no País, como conectividade, infraestrutura e formação docente, mas inovar é olhar para um problema e transformá-lo em solução. Inovação, para mim, não é apenas tecnologia ou equipamento, é atitude.”
Depois dos prêmios, ela foi convidada a implementar a disciplina de tecnologia na rede estadual paulista e também no Rio, mas se ressente de não ter recebido apoio do governo brasileiro nem no prêmio de 2019 nem agora. Hoje, ela atua com formação docente e políticas públicas. “A desvalorização da carreira faz com que o professor não consiga se atualizar. Eu já atuei em três escolas. E confesso que quando eu chegava na terceira, meu pique já não era o mesmo da primeira.”
Débora é uma das palestrantes da São Paulo Innovation Week, o maior festival global de tecnologia e inovação, promovido pelo Estadão. O evento será entre 13 e 15 de maio na Faap e na Arena Pacaembu com mais de 2 mil palestrantes.
O festival é uma realização do Estadão, em parceria com a Base Eventos. Assinantes podem comprar ingressos com 35% de desconto: clique aqui para adquirir o passaporte para os três dias de evento. Não assinantes podem acessar este link.

Como surgiu o seu interesse por tecnologia na educação?
Eu dava aulas de Língua Portuguesa e comecei a perceber que os estudantes não conheciam muitas coisas relacionadas à tecnologia. Isso me causava uma inquietação: como olhar para a educação e entender de que forma a tecnologia poderia ser inserida de maneira transversal? Em 2015, surgiu uma oportunidade de eu sair da minha zona de conforto para assumir aulas de tecnologia e inovação para a escola toda. Naquele momento, quase não se falava em robótica dentro da educação, principalmente sem material especializado. Nem se sabia exatamente o que era robótica. Eu já trazia uma visão diferente porque havia trabalhado na indústria antes de ser professora. Foi um período concomitante, inclusive para conseguir pagar minha faculdade. Essa experiência me fez compreender a importância da linguagem de programação e da tecnologia para a formação dos estudantes.
Como começou esse trabalho novo?
Começou em uma escola que fica entre quatro grandes comunidades da zona sul de São Paulo, próxima ao aeroporto de Congonhas. Era uma região marcada por violência, tráfico e problemas sociais profundos. Quando comecei a ouvir os estudantes, percebi que cerca de 70% deles relatavam o lixo como um problema central em suas vidas. Em períodos de chuva, o acúmulo de resíduos impedia o acesso à escola e contribuía para doenças como dengue e leptospirose. Foi ali que surgiu a ideia de transformar um problema cotidiano em aprendizagem. A proposta era trabalhar tecnologia e robótica a partir de materiais recicláveis. Os estudantes identificavam problemas reais das comunidades e pensavam em soluções tecnológicas.
Desenvolvemos sensores para córregos que alertavam sobre risco de enchentes, sistemas de acessibilidade para pessoas com deficiência e semáforos inteligentes. A sucata era usada como base para construir os protótipos. Isopor, recipientes plásticos e materiais descartados eram reaproveitados. Os componentes eletrônicos eram comprados aos poucos, mas a estrutura era construída a partir do que existia ao redor. O mais importante era mostrar que inovação não dependia apenas de recursos financeiros, mas de criatividade e propósito.
O que significou receber esse reconhecimento internacional?
O prêmio foi significativo, claro, mas principalmente pelo impacto que teve nos estudantes. Eles perceberam que a realidade de pobreza não precisava determinar o futuro deles. Eu nunca vou esquecer do momento em que recebi o e-mail dizendo que estava entre as 50 melhores professoras do mundo. Estava aguardando uma cerimônia de outro prêmio, olhei o celular e vi a mensagem marcada como confidencial. Naquele instante, eu desabei. Não por mim, mas porque percebi o quanto aquele trabalho, que começou dentro da sala de aula, tinha ganhado alcance e reconhecimento internacional.
O que é inovação na educação para você?
Inovação, para mim, não é apenas tecnologia ou equipamento. É atitude. Nós temos problemas estruturais importantes no País, como conectividade, infraestrutura e formação docente, mas inovar é olhar para um problema e transformá-lo em solução. Inovar significa promover ações diferentes dentro de um território específico. Não é repetir fórmulas prontas, mas compreender o contexto e responder a ele de forma criativa. O que deu certo para mim, com o trabalho de robótica com sucata, por exemplo, em São Paulo, numa região desigual, talvez não funcione para uma escola que esteja lá no sul do País. Então, a gente precisa deixar mais flexível, para que as políticas públicas possam atuar de fato. Nem sempre a gente tem liberdade de fazer isso acontecer na ponta.
E ainda temos um problema geracional. Nós, professores, não fomos preparados e nem formados em sua grande maioria para lidar com essa revolução tecnológica. E os nossos jovens estão inseridos nesse meio tecnológico. A forma que eles aprendem é outra. Eu aprendi que teria que ser uma autoridade dentro de sala de aula, eu precisava exercer realmente uma postura. E a minha prática me mostrou que eu estava errada em relação a isso. Que o maior contrato que eu posso exercer dentro de uma sala de aula é uma escuta ativa. Então, para a gente poder mudar, a gente tem que escutar mais, mas muitas vezes nós somos engolidos por um currículo, por um programa que muitas vezes vem de cima para baixo.
Como você vê a proibição de celular nas escolas? Acredita que passa uma mensagem dúbia sobre tecnologia?
Eu acho que falta a gente encontrar um equilíbrio. A tecnologia pode ser muito boa para muitas coisas, eu acho que a gente já tem evidências disso na educação. O problema é que muitas vezes ela é vista apenas como ferramenta. Pouco se trabalha a tecnologia como objeto de conhecimento, algo que o estudante precisa compreender criticamente. A gente proibiu o celular porque era muito mais fácil, muito mais rápido, do que apoiar o professor nesse sentido. Só que somente isso não resolve o problema da educação. Se esse estudante não souber o que é a cultura digital, o mundo digital, o pensamento computacional, como ele funciona na prática, ele não vai ser curador de informação, ele vai continuar sendo consumidor dessa tecnologia que está aí.
Eu vou ser honesta, eu só consegui desenvolver o trabalho de robótica com sucata com os meus estudantes graças ao celular que eu tinha na época. Eu dava o celular na mão deles, eles iam para as ruas, fotografavam os pontos de lixo, traziam para sala de aula e usavam o meu celular para realizar pesquisa. E para baixar programas para fazer a automatização daquilo que eles estavam querendo. Ou seja, se eu não tivesse um celular na época, eu não teria conseguido fazer o trabalho. Isso é uma intencionalidade pedagógica.
Mas os professores ainda têm muito medo de trabalhar com tecnologia.
Os nossos professores não desenvolveram competências digitais para trabalhar com isso e, naturalmente, eles têm o receio de perder a sala de aula. Eu já tive muitos colegas que falaram para mim: ‘Eu não vou trabalhar isso porque eu tô com medo de não conseguir dar conta da sala de aula’. Como é que você muda isso? Mostrando casos de sucesso, boas práticas, isso a gente ainda faz muito pouco. Mas também dando segurança para o professor para ele saber mexer naquelas ferramentas, que muitas vezes o aluno sabe melhor que ele. A desvalorização da carreira faz com que o professor não consiga se atualizar. Eu já atuei em três escolas. E confesso que quando eu chegava na terceira escola, meu pique já não era o mesmo da primeira.
Mas eu acredito em uma educação que é 5.0, que visa uma humanização da tecnologia. O professor lá na educação 1.0 era aquela pessoa que tinha o conhecimento. Depois, a gente começou a quebrar isso, o professor como mediador desse conhecimento. Professor precisa compreender que ele é um aprendente, ele está ali realmente para mediar essas situações. E a gente nunca vai conseguir saber tudo sobre tecnologia, porque ela muda a cada minuto. Então é muito natural que o professor realmente não se sinta preparado. Mas essa confiança, essa segurança, você estabelece a partir do momento que você dá em infraestrutura, material didático, formação.
Como você vê a formação inicial dos professores, você sabia dar aulas quando começou, aprendeu isso na faculdade?
Eu estudava de manhã, recebi uma bolsa, à tarde eu fiz estágio por 4 anos, ou seja, eu sabia quais eram os problemas que eu ia enfrentar quando eu assumisse uma carreira, um cargo de professora. Isso fez toda diferença. Eu defendo muito que a gente tenha uma residência pedagógica. Esse profissional precisa ser equiparado a um médico. Minha professora no magistério falava algo que para mim foi muito forte: ‘Se vocês não estudarem direito, vocês vão assassinar 30 crianças por ano’. Ela estava certa, porque se eu não me preparar para estar perante essas crianças, eu vou deixar dores nelas que vão para a vida inteira. Hoje o estágio muitas vezes nem é feito, porque existe uma comodidade dos dois lados. O professor não quer ter um estagiário dentro da sala dele, ou a escola não quer receber essa pessoa, acaba assinando ali e a pessoa nem faz o estágio da forma que deveria.
Você acha que dá ainda para resgatar no Brasil a valorização dos professores que muitos países conseguiram?
Eu vou te falar uma coisa que eu nunca disse. Em 2019, no Global Teacher Prize, nós fomos o único País sem representante brasileiro, porque o governo se recusou a ir no prêmio. E eu estou te falando isso com uma dor profunda. Foi durante o governo Bolsonaro. Este ano, eu ganhei um novo prêmio e não recebi nenhum contato também do atual governo. A gente ainda valoriza muito pouco os professores. E eu não estou falando de qualquer coisa, eu estou falando de um prêmio que coloca o Brasil em um cenário muito importante internacional, que mostra que no contexto de extrema escassez, nós podemos inovar, e que nós abrimos as portas para democratizar o acesso à tecnologia e inovação.