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Quem é a nova diretora da Poli-USP, especialista em IA: ‘Tive empregos negados por ser mulher’

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A segunda diretora mulher em 132 anos de história da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP), que tomou posse este mês, acumula mais um ineditismo. Anna Reali, de 63 anos, é uma referência em pesquisas em Inteligência Artificial e a primeira a comandar a mais tradicional faculdade de Engenharia do País vinda da área da robótica. Como engenheira da computação, ela é contra a ideia recente de proibir celulares no ensino superior, anunciada por algumas instituições privadas.

“Eu acho que é muito drástico. Além de ser uma forma dos alunos interagirem entre eles, a gente pede para fazer pesquisas, para ver a resposta de um chatbot”, conta, em entrevista ao Estadão. O que ela defende é um “uso ético” das tecnologias.

Um dos exemplos é a famosa “cola” durante a prova, algo que faz parte da cultura educacional no Brasil. A trapaça nos exames tem ganhado formas mais sofisticadas atualmente e, segundo Anna, não se pode ser condescendente com isso.

“A gente já teve caso de aluno fotografou a prova logo no início, mandou por internet e alguém de fora respondeu. Além dos celulares, tem canetas, várias tecnologias, realidades que os professores não conseguem acompanhar”, afirma.

Na sua gestão, diz, professores de todas as disciplinas terão de discutir o assunto. “Incentivar essa visão ética e falar do papel do engenheiro, da responsabilidade perante a sociedade. Porque a gente não quer esse tipo de profissional no mercado, é muito importante ele conseguir atingir as metas que se propõe com esforço próprio.”

Anna criou o campeonato de futebol de robôs da Escola Politécnica, que deu origem à Olimpíada de Robótica.
Anna criou o campeonato de futebol de robôs da Escola Politécnica, que deu origem à Olimpíada de Robótica.

Sua opinião é semelhante com relação à inteligência artificial. Pesquisadora de machine learning, Anna acredita que a máquina serve para “lapidar” e ajudar no trabalho humano e não substituir.

Ela considera razoável usar bots na universidade para melhorar um texto ou ajudar em pesquisas. “A inteligência artificial pode auxiliar como tutor, para suas carências próprias, suas dificuldades, pode tratar de você individualmente. Com turmas grandes, massificadas, não dá tempo de a gente cuidar e ver as dificuldades de cada um dos alunos.”

Mas, acredita que a Poli precisa continuar a incentivar a curiosidade e a criatividade humana porque é daí que vem a inovação. “O aprendizado é dolorido, errar é importante, precisa colocar as engrenagens do seu cérebro funcionando adequadamente para entender aquele conceito. E é muito lindo quando você entende”, diz. “Ter ideias e testar, ser curioso e questionador. Isso são posturas que não vêm da inteligência artificial. Vêm das pessoas.”

‘Queria trabalhar com automação industrial e, em muitos lugares, falavam: você é mulher, vai casar e ter filhos’

Anna Reali, diretora da Escola Politécnica da USP

Anna diz que foi uma criança que sempre gostou de Matemática, apesar de reconhecer que, até hoje, as mulheres são desencorajadas na disciplina. Era a única menina da sala na escola técnica que cursou na adolescência e também foi a única a se formar em sua turma da graduação.

“Quando me formei, apesar de eu ter sido a primeira colocada da minha turma, tive empregos que me foram negados por ser mulher. Eu queria trabalhar com automação industrial e, em muitos lugares, falavam: ‘você é mulher, jovem, vai casar, vai ter filho e isso não é bom para a linha de produção’”

Anna se casou, teve duas filhas, hoje tem três netos, ingressou na carreira acadêmica, pesquisou visão computacional na Universidade de Karlsruhe, na Alemanha, fez mestrado e doutorado, criou o campeonato de futebol de robôs da Escola Politécnica, que deu origem à Olimpíada de Robótica, e se tornou uma das 11 professoras titulares da faculdade – são 72 homens.

Ela acredita que os novos docentes contratados pela USP nos últimos anos, mais jovens, têm ajudado a Poli a mudar uma cultura predominantemente masculina e, muitas vezes, machista. A universidade teve uma contratação recente de mais de 900 novos docentes – algo inédito na última década, após anos de déficit de profissionais.

Mesmo assim, na Poli, ainda há cerca de 15% de mulheres no quadro de professores. Vem daí também a dificuldade para mais diversidade na gestão; antes de Anna, a primeira diretora havia sido Liedi Légi Bariani Bernucci, entre 2018 e 2022, que hoje é a atual vice-reitora da USP.

Anna é a segunda diretora mulher em 132 anos de história da Escola Politécnica da USP.
Anna é a segunda diretora mulher em 132 anos de história da Escola Politécnica da USP.

Entre os alunos, os números também não mudam há anos: as mulheres são cerca de 20%. Além da questão de gênero, a nova diretora se preocupa com a atratividade dos jovens, tanto para a carreira de engenheiro quanto para a própria universidade pública. “A gente tem que alterar um pouco a visão que tem da universidade para fora. Eu acho que a gente não se preocupava com esse problema porque a Poli atraía e pronto”, diz.

Agora, ela acredita que é necessário mostrar a importância do engenheiro para a sociedade por meio, por exemplo, de cursos de extensão, obrigatórios para os alunos, e que encontram soluções para as pessoas – como projetos de bengalas eletrônicas para cegos ou exoesqueletos para reabilitação.

Ela pretende criar uma comissão para integrar e organizar esses programas. “A sociedade vai sentir que a engenharia pode fazer algum bem para ela.”

E ainda sobre o debate recente da relevância da universidade pública, principalmente entre camadas de elite que muitas vezes optam por uma instituição privada, ela dá o recado: “A gente tem todos os extratos da sociedade aqui. Saber lidar com isso é uma habilidade que ele não vai conseguir em uma universidade particular, focada em um nicho de oferecimento. No mundo hoje, a gente não pode só negociar com a Europa e com os Estados Unidos, a gente tem que falar com a África, com a Ásia, e você conviver com essa diversidade desde cedo te dá mais habilidades e capacidade de entender os pontos de vista distintos que o mundo oferece.”

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